
Nas manhãs de quinta-feira, Rosângela dos Santos já sabe que é dia de servir com esmero as mesas do salão do Petit Trianon, na sede da Academia Brasileira de Letras. O ritual atravessa gerações desde julho de 1897, quando a ABL foi fundada por quarenta escritores arregimentados pelos colegas de ofício Machado de Assis, o primeiro presidente, e Joaquim Nabuco, secretário-geral.
O encontro semanal é uma tradição inaugurada no século XIX, nos moldes da Académie Française e sob as bênçãos de Dom Pedro II. Quase 130 anos depois, o Chá das Cinco continua aproximando os acadêmicos, antes e depois das sessões plenárias. O objetivo é propôr um respiro nos debates mais sérios e oferecer — de bandeja — certa leveza ao convívio entre os companheiros de fardão.
Funcionária da Academia há cerca de três anos, Rosângela aparenta gostar do que faz. “É bom! Tem que ter a sabedoria da fala, a sabedoria de servir e a sabedoria de dar atenção aos acadêmicos e às visitas, que são muitas”, diz. Sobre os ilustres visitantes, ela já testemunhou conversas dos imortais com o moçambicano Mia Couto, os portugueses Valter Hugo Mãe e Lídia Jorge, o russo Mikhail Gorbatchov e os brasileiros Cármen Lúcia e Lázaro Ramos.
Segundo a copeira, quase todos os comensais espetam o garfo em fartos pedaços de frutas: reinam o mamão, o morango e a manga palmer, aquela docinha e sem fiapos. O bolo inglês e o pão de miga também são famosos, além dos sucos naturais — de abacaxi, tangerina, maçã... Ocupante da cadeira 13, o escritor e jornalista Ruy Castro evita se alimentar fora de casa, mas não resiste ao suco de laranja do local. Biógrafo de Nelson Rodrigues, Carmen Miranda e Garrincha, é figurinha fácil nos encontros.
“As pessoas fazem um grande folclore em relação ao chá. Acham que é uma coisa importantíssima, em que os acadêmicos discutem língua portuguesa, filosofia, com a xícara na mão, mas não é nada disso. É só para que possamos beliscar alguma coisa juntos”, elucida. “Hoje pode não fazer muito sentido, mas quando a ABL nasceu, fazia — porque grande parte dos acadêmicos trabalhava aqui perto e nem sempre sobrava tempo para almoçar. Então a Academia providenciava esse lanche.”
Com 20 anos de casa e assento na cadeira 28, Domício Proença Filho relata que os imortais pioneiros enfrentaram uma série de provações; no início, houve muita instabilidade e até um período em que não havia onde se reunir. “Mas, com dez anos de existência, a ABL se consolidou de tal maneira que foi considerada, e ainda é, a instituição mais representativa da cultura brasileira”, afirma. Para Merval Pereira, eleito em 2011 para a cadeira 31 e presidente desde 2022, o chá “serve para apertar os laços de uma relação que seja eterna enquanto dure”.
Aos 90 anos, com 34 deles dedicados à Academia Brasileira de Letras, Arnaldo Niskier diz que aguarda o chá com ansiedade, “no melhor sentido da palavra”. “Esse bate-papo antes das sessões é importante. O chá é informal e muito gostoso, porque é acompanhado não só do que se fala, mas do que se come”, brinca, lúcido e faceiro, o ocupante da cadeira 18.
Outro que bate ponto e não dispensa um belisquete é o poeta Geraldo Carneiro, que revela uma curiosidade, digamos, contraintuitiva. “No salão já vi água de coco, guaraná, café, mas chá nunca vi”, surpreende. “Vários acadêmicos até traziam uísque, vodca e otras cositas más. Tudo cai bem neste lugar de confraternização.”
Parceiro de Tom Jobim e Milton Nascimento em composições, Geraldinho — como é chamado pelos mais íntimos — é bom de papo e de causos. Revela a esta repórter uma crendice que ninguém ousa quebrar: é proibido sentar na cabeceira, sob pena de ser o próximo a “fechar o paletó”.
“Qualquer convidado que entra aqui e faz menção de sentar na cabeceira, todo mundo impede: ‘Não, não, não faça isso. Queremos que você viva!’. Então estamos num espaço curioso e cheio de conversas divertidas e superstições que foram se cristalizando ao longo do tempo. É uma delícia”, conta o poeta.
Como todo ambiente acadêmico, a ABL tem uma espécie de turma do fundão, com gente mais piadista, extrovertida e gregária, e a da frente, com indivíduos mais reservados. Ferreira Gullar, morto em 2016, era desses. Em seu período de ABL, foi se soltando aos poucos.
“Ele começou a chegar cedinho. Vinha sem almoço, para comer. É surpreendente que pessoas sem facilidade no trato social se tornem, aqui, mais afeitas ao convívio”, reflete Geraldinho, enquanto sorve mais um gole de uma bebida qualquer sob o olhar da escritora Ana Maria Machado. Na véspera, ela havia sido anunciada como Personalidade Literária de 2025 do Prêmio Jabuti, motivo pelo qual recebeu uma salva de palmas na plenária.
A vez das escritoras
Com mais de cem livros publicados e uma coleção de prêmios de ponta na estante, Ana Maria Machado ocupa a cadeira 1 da instituição desde 2003. “O Chá é uma oportunidade de encontrar os amigos e botar os assuntos em dia. É a hora do recreio”, diz a autora, que não brinca em serviço.

Ana Maria soube outro dia que uma das primeiras matérias sobre feminismo publicadas na imprensa brasileira foi escrita por ela, informação que lhe chegou pela socióloga, pesquisadora e militante feminista Branca Moreira Alves. Foram duas páginas inteiras no Jornal do Brasil, nos anos 1970.
“As mulheres eram raras na ABL e na sociedade brasileira. Não votavam, não tinham conta em banco, não recebiam herança. Não podiam fazer nada. Era um absurdo”, ressalta, com o dedo em riste.
Para se ter ideia de como a banda tocava, a escritora e abolicionista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934), cujas crônicas permanecem assustadoramente atuais, fazia parte do grupo que gestou o projeto da ABL, mas não pôde ingressar na instituição, que, à imagem e semelhança da Académie Française, fixou como regra a proibição de mulheres em seu quadro de imortais. Já o seu marido, Filinto de Almeida (1857-1945), sim, entrou para ocupar a cadeira 3.
Ana Maria Machado puxa pela memória a história de Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), também marcada pela luta em prol do ingresso de mulheres na instituição. Romancista, contista e cronista, Dinah foi quem mais trabalhou para que o regimento fosse modificado e contemplasse escritoras.
“Ela foi convencendo um por um dos acadêmicos e construiu a mudança ao longo dos anos. Quando achou que a ideia estava madura, criou uma estratégia: fazer com que Rachel de Queiroz se candidatasse, e não ela, cuja militância já tinha conquistado a antipatia de alguns”, diz Ana Maria. “A Rachel era aparentada com o ex-presidente Castelo Branco e vivíamos a ditadura militar. Então, seria muito mais fácil aceitarem a Rachel do que a Dinah, o que, de fato, aconteceu.”
Depois da eleição da autora de O Quinze em 1977, foi a vez de Dinah, em 1980.
Se hoje são seis acadêmicas — Ana Maria Gonçalves, Lilia Schwarcz, Fernanda Montenegro, Ana Maria Machado, Rosiska Darcy de Oliveira e Miriam Leitão —, muitas batalhas tiveram de ser travadas nos bastidores e no país para que as mulheres se fizessem presentes. Diante, no entanto, do fato de que os homens são 34 atualmente, vê-se que ainda há muito a ser feito.
Machado de Assis vive

A história da ABL, que tem como seu maior símbolo Machado de Assis, está preservada no casarão da Avenida Presidente Wilson, 203, no centro do Rio de Janeiro. Uma estátua dele sentado na cadeira de número 1 dá as boas-vindas aos transeuntes.
O “Bruxo do Cosme Velho”, aliás, revive duplamente por ali. Pintado à mão pelo coletivo Negro Muro, um mural de 150 metros ostenta fragmentos da história do escritor, exibindo sua negritude inconteste e as origens no Morro da Providência.
Idealizada pelo artista Fernando Cazé e pelo pesquisador Pedro Rajão, e pincelada por Cazé e César Mendes, a arte foi produzida entre agosto e setembro de 2024 para comemorar os 185 anos do nascimento do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas, sucesso literário desde 1880, quando ainda era veiculado em folhetins da Revista Brasileira. Reunido em um volume pela Tipografia Nacional, chegou às mãos dos leitores no ano seguinte e segue como objeto de estudo e deleite.
Se, do lado de fora da Academia Brasileira de Letras, em bronze e tintas Machado vigia quem passa na rua, do lado de dentro, seu legado pode ser degustado a cada quinta-feira, quando o tilintar de louças e talheres faz a música ambiente. O Chá das Cinco é como um samba de Paulinho da Viola: uma pausa duradoura e saborosa de alguns compassos que mantém a ABL em movimento desde 1897.
*Matéria veiculada na segunda edição impressa da Revista PublishNews, lançada em novembro de 2025, com tiragem de 10 mil exemplares e distribuição gratuita, tanto física quanto digitalmente (em breve). Quer contribuir financeiramente com o canal? Clique aqui.


