Publicidade
O corpo que sobe montanhas: sobre 'Montanhas de Diana', de Anna Maria Mello
PublishNews, Vanessa Passos, 08/07/2025
Em novo texto, Vanessa Passos discorre sobre a força do romance de Anna Maria publicado pela Quelônio

Diana sangra em silêncio — mas também em flor.

Anna Maria Mello
Anna Maria Mello
Há um momento em que o corpo deixa de ser apenas casa e passa a ser batalha. Quando o diagnóstico vem, ele não vem só: traz bisturi, palavras duras, e um espelho que já não reconhece a própria imagem. Montanhas de Diana, de Anna Maria Mello, é a travessia desse abismo. Um romance onde cada página é um passo na montanha do viver — íngreme, cortante, mas também cheia de epifanias.

Diana, a protagonista, é mulher que corre. Mãe de duas adolescentes, produtora de festas para os sonhos dos outros, ex-professora, ex-marido, ex-muitas-coisas. E no meio da correria, o freio: câncer de mama. O tempo agora não se mede em agendas, mas em exames, quimioterapia, reconstruções, que vão do seio e da alma.

Fico me perguntando com melancolia se nós, mulheres, realmente precisamos adoecer para parar? Para olharmos profundamente dentro de nós? E quando isso tudo começou? Quando a sociedade do cansaço começou a nos cobrar perfeição e acreditamos nisso?

Anna Maria Mello escreve com a coragem de quem sabe que a escrita é também cicatriz. Sua prosa é densa, sem ser pesada. É leve, sem ser rasa. Há beleza nas palavras, mesmo quando elas falam de queda de cabelo, de dor fantasma, de um corpo que se despede do que era.

O romance é tecido por dois fios: o da doença — crua, clínica, exaustiva — e o da memória. Diana revisita a infância, a juventude, as heranças que moldaram sua forma de ser mulher. E entende que o câncer é só mais uma das violências que um corpo feminino carrega: junto da frieza dos hospitais, vem o machismo cotidiano, o peso das ausências, o silenciamento histórico.

Mas também há amor. Há filhas que crescem junto com a dor da mãe. Há amigas, há lembranças que aquecem, há uma escrita que se ergue mesmo quando o corpo vacila. Diana não é heroína, e talvez por isso nos comova tanto. Ela é mulher real: forte na vulnerabilidade, inteira na fragmentação.

Montanhas de Diana não é um livro sobre o câncer. É sobre o que o câncer revela: os ruídos, os traumas, mas também as potências esquecidas. É uma narrativa de resistência que é, ao mesmo tempo, literária, emocional, política. Um ato de amor à própria vida, ainda que remendada. Anna Maria Mello entrega um romance necessário e lírico, que transcende o tema da doença para tocar o que é mais humano: a impermanência, a reconstrução, a verdade dos corpos que insistem em viver. Montanhas de Diana merece espaço em clubes de leitura, rodas de mulheres, salas de espera e prateleiras de todos que compreendem que sobreviver também é um gesto de criação.

Livro indicado:
Montanhas de Diana, de Anna Maria Mello
Editora: Quelônio

Vanessa Passos é escritora, roteirista, professora de escrita criativa, doutora em Literatura (UFC) e pós-doutora em Escrita Criativa (PUCRS), sob orientação de Luiz Antonio de Assis Brasil. É idealizadora do Programa 321escreva, do Método Mais Vendidos e do Encontro Nacional de Escritoras. Lidera uma comunidade de escritoras que tem voz em mais de 9 países, orientando centenas de escritoras a escrever, publicar e divulgar seus livros. Autora do volume de contos A mulher mais amada do mundo (2020). Seu romance de estreia A filha primitiva foi vencedor do Prêmio Kindle de Literatura (2021), do Prêmio Jacarandá (2022), do Prêmio Mozart Pereira Soares de Literatura (2023) e vai ser adaptado para o cinema pela Modo Operante Produções, agora publicado pela José Olympio. É colunista do Jornal O POVO e do PublishNews. Nas redes sociais, a escritora pode ser encontrada no perfil: @vanessapassos.voz.

Tags: Quelônio
[08/07/2025 09:00:00]
Leia também
No filme, Kristen Stewart apresenta a trajetória de Lidia Yuknavitch, uma ex-promessa da natação olímpica que encontra na escrita uma forma de sobreviver aos traumas
Na peça 'O motociclista no globo da morte', ator vive um professor de matemática aparentemente racional, pacífico, que costuma ter empatia pelas pessoas e se afasta de qualquer ato violento
O filme permanece mesmo depois da última cena, daqueles que a gente não quer ir embora da sala de cinema e fica ali até que todos saiam
Novo filme de Chloé Zhao, com Jessie Buckley e Paul Mescal, é uma adaptação literária de beleza aterradora que dá vida à primeira esposa de William Shakespeare, Agnes, e ao seu filho Hamnet
Peça escrita e dirigida por Nicolas Ahnert, com atuação visceral de Thalles Cabral, tem últimos dias em cartaz em São Paulo
Outras colunas
Amilton Vieira de Santana convida o leitor a mergulhar em um conjunto de poemas que celebram o amor em sua forma mais humana
Episódio da semana conversa sobre a febre cultural do Brasil em torno do hábito de colecionar figurinhas
No filme, Kristen Stewart apresenta a trajetória de Lidia Yuknavitch, uma ex-promessa da natação olímpica que encontra na escrita uma forma de sobreviver aos traumas
Evento paulistano começa no dia 30 de maio e vai até 7 de junho, reunindo 107 autores e autoras em mais de 200 atividades gratuitas
Em um texto que cruza com acontecimentos recentes, Fernando Tavares fala sobre novo Manual de práticas de IA brasileiro e sobre o 'Magnifica Humanitas'