
Saí da sessão de A cronologia da água, dirigido por Kristen Stewart, no Belas Artes, em São Paulo, sem conseguir falar. Vi o filme na semana de estreia e desde então adiei este texto. Chorei depois da sessão. Havia muito tempo que um filme não me atingia dessa forma. No filme, acompanhamos a trajetória de Lidia Yuknavitch, uma ex-promessa da natação olímpica que encontra na escrita uma forma de sobreviver aos traumas, abusos e violências que atravessaram sua vida.
Talvez porque A cronologia da água não esteja interessado em tornar a dor palatável. Kristen Stewart constrói uma adaptação que se recusa a organizar o trauma em narrativas fáceis de superação. O filme não oferece conforto emocional ao espectador. Ele trabalha justamente na zona do excesso, da fragmentação, da memória quebrada. Existe uma recusa em transformar a experiência feminina violentada em produto elegante e motivacional.
Ao adaptar a autobiografia de Lidia Yuknavitch, Stewart entende que determinadas experiências não podem ser narradas de maneira linear porque o trauma não opera em linha reta. A memória traumática rompe a lógica temporal, invadindo o presente e contaminando o corpo, de maneira que altera a percepção do desejo e da intimidade. O filme compreende isso no que se refere à forma. A montagem é instável, o ritmo oscila entre vertigem e suspensão, e a água surge como metáfora, mas também como linguagem emocional. Afogamento, nascimento, desejo, dissolução. Tudo atravessado pela ideia de um corpo feminino tentando sobreviver às próprias ruínas.
Muito dessa força emocional também está na atuação de Imogen Poots. Sua interpretação evita qualquer caminho previsível do sofrimento feminino no cinema. Ela não constrói uma personagem em busca de empatia fácil. Seu corpo em cena está permanentemente tensionado entre desejo, violência e esgotamento. Há momentos em que basta um olhar perdido ou uma alteração mínima na respiração para compreendermos o estado interno daquela mulher. Imogen trabalha a vulnerabilidade sem fragilidade performática. Existe algo de bruto em sua atuação, quase indomesticável, que combina perfeitamente com a proposta estética do filme.
Os gatilhos vieram de forma brutal justamente porque o filme evita explicações psicológicas simplificadas. Há algo muito preciso na maneira como ele representa dissociação, vergonha e, sobretudo, autodestruição. Tanto nos episódios mais explícitos de violência, quanto nos pequenos gestos. Na incapacidade de permanecer inteira dentro das relações. Na tentativa contínua de preencher vazios através do sexo, do vício e da fuga – esse mecanismo primário que nos acompanha há séculos. Em muitos momentos, tive a sensação de assistir não a uma personagem, mas ao movimento interno de uma mulher tentando continuar existindo depois de ter sido quebrada inúmeras vezes. E de algum modo aquela mulher também era eu.
Penso que somente uma mulher pudesse dirigir esse filme da maneira como Kristen Stewart ousadamente dirige. Inclusive, porque existe uma diferença histórica na forma como o cinema olha para o corpo feminino. Durante décadas, vimos mulheres destruídas serem filmadas a partir do fascínio masculino pela ruína. A dor feminina frequentemente foi estetizada, erotizada ou usada como combustível dramático para personagens masculinos. Em A cronologia da água, a câmera não transforma sofrimento em espetáculo. Existe desconforto, intimidade e descontrole, mas não existe voyeurismo.
A presença de mulheres na direção muda radicalmente o modo como determinadas histórias são contadas. Muda o enquadramento, o silêncio, o que permanece em cena e o que é recusado. Muda principalmente a possibilidade de complexidade. Kristen Stewart não tenta tornar sua protagonista agradável nem moralmente compreensível. Ela permite que essa mulher seja contraditória, sexual, agressiva, vulnerável e muitas vezes insuportável. Isso ainda é raro no cinema.
Demorei para escrever sobre o filme porque precisava entender o que exatamente havia me atravessado naquela sessão do Belas Artes. Talvez tenha sido o reconhecimento de certas violências subterrâneas que muitas mulheres carregam silenciosamente durante anos. Talvez tenha sido a brutal honestidade emocional da adaptação. Ou talvez porque o filme entende algo difícil de nomear: sobreviver nem sempre produz redenção.
Agora comecei a ler em espanhol a autobiografia de Lidia Yuknavitch que serviu de base para o filme. A leitura tem aprofundado ainda mais essa experiência. O livro possui uma escrita física, cortante, quase indomável. No filme, há trechos de textos da autora que aparecem em tela. E perceber como Kristen Stewart conseguiu traduzir essa linguagem para o cinema revela a potência rara de uma adaptação que não tenta domesticar a obra original.
Existe algo profundamente corajoso em mulheres que escrevem sobre destruição sem pedir desculpas pela própria fúria. Lidia faz isso na literatura. Kristen Stewart faz isso no cinema. E talvez tenha sido justamente esse encontro entre duas mulheres interessadas em linguagem, ruptura e sobrevivência que transformou “A cronologia da água” numa experiência tão devastadora para mim.
Vanessa Passos é escritora, roteirista, professora de escrita criativa, doutora em Literatura (UFC) e pós-doutora em Escrita Criativa (PUCRS), sob orientação de Luiz Antonio de Assis Brasil. É idealizadora do Programa 321escreva, do Método Mais Vendidos e do Encontro Nacional de Escritoras. Lidera uma comunidade de escritoras que tem voz em mais de 9 países, orientando centenas de escritoras a escrever, publicar e divulgar seus livros. Autora do volume de contos A mulher mais amada do mundo (2020). Seu romance de estreia A filha primitiva foi vencedor do Prêmio Kindle de Literatura (2021), do Prêmio Jacarandá (2022), do Prêmio Mozart Pereira Soares de Literatura (2023) e vai ser adaptado para o cinema pela Modo Operante Produções, agora publicado pela José Olympio. É colunista do Jornal O POVO e do PublishNews. Nas redes sociais, a escritora pode ser encontrada no perfil: @vanessapassos.voz.