
Agnes Hathaway (interpretada por Jessie Buckley) é uma mulher que cria. É uma alquimista. Mistura ervas enquanto repete ladainhas, quase pequenos poemas de cura, destinados ao corpo que em breve receberá seus preparos. A criação, para Agnes, é um modo de existir no mundo, ainda que tais práticas sejam vistas de forma pejorativa e que ela seja chamada de “bruxa”.
William Shakespeare (vivido por Paul Mescal) aparece atormentado, sufocado por um ambiente que oprime sua sensibilidade e limita sua arte. Ele repete um gesto comum a tantos escritores e artistas: deixar o lugar natal e partir para Londres, onde acredita ser possível fomentar plenamente sua expressão artística.
O luto ronda o casal desde muito antes da morte do filho. Há lutos simbólicos que antecedem a perda concreta: a distância (idas e vindas de William), a morte do falcão, a impossibilidade de Agnes de parir os gêmeos na floresta devido ao alagamento. A narrativa compreende o luto não como ruptura súbita, mas como estado que se perdura ao longo da vida. É um acúmulo de pequenas mortes.
A adaptação cinematográfica não se sustenta apenas em cenas belas isoladamente. Elas se constroem em conjunto com o encadeamento da trama, o aprofundamento psicológico das personagens e uma fotografia que cria uma atmosfera singular, quase hipnótica.
O filme, dirigido por Chloé Zhao, une cenas de forte realismo com momentos de caráter surreal. De um lado, há a briga do casal após a recente perda do filho: Agnes ironiza William, em seguida grita, perde o controle e o agride; ele precisa abraçá-la com força para conter sua fúria até que ela descarregue a raiva. De outro, há a caminhada do pequeno Hamnet, sua travessia simbólica para o mundo dos mortos, uma sequência capaz de levar qualquer espectador às lágrimas.
Chloé Zhao, terceira mulher a vencer o Globo de Ouro na categoria de Melhor Direção, é conhecida por transitar entre documentário e ficção. Aqui, ela adapta o livro com ousadia: constrói uma figura histórica, preenche lacunas com a imaginação e devolve complexidade e humanidade tanto às personagens quanto ao tema do luto.
A metalinguagem que insere o teatro e Hamlet em cena, no momento final do filme, é especialmente poderosa. A encenação da peça, a reação da plateia, incluindo a própria Agnes, e o surrealismo da passagem definitiva de Hamnet, que só consegue partir em paz após o momento catártico proporcionado pela tragédia encenada, compõem uma das sequências mais bonitas que vi nos últimos anos.
O filme me fez pensar que o olhar feminino na arte, tanto na literatura, com Maggie O’Farrell, quanto no cinema, com Chloé Zhao, não deveria ser exceção, mas regra no que diz respeito aos holofotes da crítica, da imprensa e da própria história da arte.
Saí do cinema não apenas com a certeza de estar diante de uma obra de arte nascida de um processo de tradução, a adaptação cinematográfica, mas também com a convicção de que é possível conviver com o luto e com a saudade com ternura, quando a arte caminha junto nesse processo.
Vanessa Passos é escritora, roteirista, professora de escrita criativa, doutora em Literatura (UFC) e pós-doutora em Escrita Criativa (PUCRS), sob orientação de Luiz Antonio de Assis Brasil. É idealizadora do Programa 321escreva, do Método Mais Vendidos e do Encontro Nacional de Escritoras. Lidera uma comunidade de escritoras que tem voz em mais de 9 países, orientando centenas de escritoras a escrever, publicar e divulgar seus livros. Autora do volume de contos A mulher mais amada do mundo (2020). Seu romance de estreia A filha primitiva foi vencedor do Prêmio Kindle de Literatura (2021), do Prêmio Jacarandá (2022), do Prêmio Mozart Pereira Soares de Literatura (2023) e vai ser adaptado para o cinema pela Modo Operante Produções, agora publicado pela José Olympio. É colunista do Jornal O POVO e do PublishNews. Nas redes sociais, a escritora pode ser encontrada no perfil: @vanessapassos.voz.