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O plano da gambiarra
PublishNews, Paulo Tedesco, 26/04/2023
Ser editor é desconhecer o amanhã, e ainda assim despertar com novas ideias e novos caminhos

Ao ler a coluna aqui no Publishnews de Leonardo Garzaro, Disciplina e Método, do início de abril, sobre a importância do improviso, na qual ele corajosamente provocou o grande Amyr Klink no planejamento na escala das importâncias, despertou-me algo ainda não tratado por aqui.

Ora, na maioria das vezes, o dono ou dona de uma empresa é o seu expoente maior, e também o seu idealizador número um. Portanto, o dono pode também ser visto como na imagem do velho timoneiro sentado à proa – para ficarmos no imaginário náutico do Amyr.

Adiante, no rio, mar ou lagoa, os ventos que se alternam em direção e força, e as águas se inquietam ou ao contrário, quedam-se quietas por demais. O timoneiro é o único a enxergar ao longe, enquanto aos demais restam as direções gritadas da proa.

Mas o timoneiro é velho, ou velha, porque não há como não envelhecer diante das responsabilidades nos rumos de uma empresa. E, se for editora de livros, que busca novos títulos e novas ideias, bom, aí envelhecer não é opção...

Quem diz o melhor caminho a ser seguido? Quem avisa das mudanças de humor do mercado e do leitor? Quem sabe se o sucesso, cantado a quatro ventos do alto do mastro midiático, será de fato um sucesso? Quem saiu de uma feira empolgado e dias depois percebeu a perda de tempo? Ou quem ignorou um título e autor e pouco depois este aparece na lista dos mais vendidos? Quem assinou contrato de direitos e no primeiro café notou o equívoco?

Claro que o planejamento é essencial. Ele nos ajuda a dormir e no que deve ser dito em palestras. Mas é a ação de se saber arriscar sem informação alguma consolidada o que pesa. Logo, devemos saber improvisar com o pouco disponível. É o que se traduz por economia: habilidade de se estudar, e praticar, diante da escassez.

Nas margens, temos em uma cautela e em outra exagero, numa inanição e noutra desespero. E com a corrente, no centro, surgem as adversidades, o impensado. No Brasil é assim, sempre foi, não à toa deixaram a inflação voltar, como se ninguém fosse o culpado. Aliás, é razoável um juro feito esse do Banco Central?

Há vários “memes” na internet brincando que o brasileiro, por sua capacidade de improvisação, mereceria estudos dos melhores institutos de pesquisa do mundo. E estão corretos. Sobreviver no mercado da cultura e no mundo do livro tem quase status de arte.

Ser editor é desconhecer o amanhã, e ainda assim despertar com novas ideias e novos caminhos. Um editor vive nova eleição a cada semana, ou dia! A cada novo livro, é uma nova votação do leitor e do mercado.

O Amyr lutou pelo máximo com o mínimo de ferramentas que coubessem no seu I.A.T. a remos, e o Leonardo sabia das próprias ferramentas para seus indispensáveis improvisos nos eventos. Não há incongruência entre o planejamento e o improviso, o que há é o indispensável conhecimento e a mais absoluta vontade de se cruzar esse atlântico chamado mundo do livro e da leitura num país empobrecido.

Paulo Tedesco é escritor, editor e consultor em projetos editoriais. Desenvolveu o primeiro curso em EAD de Processos Editorais na PUCRS. Coordena o www.editoraconsultoreditorial.com (livraria, editora e cursos). É autor, entre outros, do Livros Um Guia para Autores pelo Consultor Editorial, prêmio AGES2015, categoria especial. Pode ser acompanhado pelo Facebook, BlueSky, Instagram e LinkedIn.

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

[26/04/2023 09:50:00]
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