Ruth Rocha é a chave da literatura infantojuvenil brasileira
PublishNews, Ubiratan Brasil, 11/09/2026
Perfil da escritora foi publicado na Revista PublishNews #3; Ocupação está em exibição na Bienal Internacional do Livro de São Paulo

Ocupação Ruth Rocha na Bienal do Livro de São Paulo | © Agência Ophelia
Ocupação Ruth Rocha na Bienal do Livro de São Paulo | © Agência Ophelia

A Ocupação Ruth Rocha do Itaú Cultural tem uma exibição especial no estande da Fundação Itaú na Bienal Internacional do Livro de São Paulo (que vai até o domingo, dia 13, no Distrito Anhembi). Com 123,5 m² e localizado na área A55, o espaço apresenta uma versão especial da exposição em homenagem a uma das mais importantes autoras da literatura infantojuvenil brasileira. A matéria a seguir — um perfil da escritora, feito pelo jornalista Ubiratan Brasil — foi publicada na Revista PublishNews #3.


O ritual transcorre todas as tardes, às 16h, quando o telefone toca na casa da escritora Ruth Rocha, de 95 anos, em São Paulo. Do outro lado da linha, sua irmã Rilda, de 97, lê trechos de obras clássicas, numa espécie de audiolivro improvisado. O hábito começou durante o isolamento forçado pela pandemia da covid, em 2020, como forma de entretenimento — e também como auxílio à mais nova, cuja visão estava um pouco prejudicada. Deu tão certo (chegaram a ler Guerra e paz, monumental obra de Tolstói) que as irmãs preservaram a rotina, reafirmando a paixão da família pela leitura.

“É uma vida dedicada aos livros”, comenta Ruth, uma das principais autoras da literatura infantojuvenil brasileira. Com mais de cinco décadas de carreira, ela acumula 200 livros publicados, 40 milhões de exemplares vendidos e traduções para mais de 25 idiomas, incluindo o urdu, língua literária do Paquistão. Seu clássico Marcelo, Marmelo, Martelo completa meio século de publicação e foi editado recentemente em Portugal e nos Estados Unidos.

A versão em inglês, aliás, ganhou elogiosa crítica assinada pelo também escritor Jon Agee no jornal americano The New York Times, na qual destaca os “diálogos incisivos” e os “jogos de palavras divertidos”. “O drama familiar peculiar de Rocha, publicado originalmente há 50 anos, sem dúvida terá ressonância entre os jovens pais de hoje”, assinala o escritor e ilustrador norte-americano.

Em meio século de criação, Ruth Rocha obteve notoriedade ao valorizar a criança como ser inteligente e dotado de espírito crítico. Seu universo literário está distante das fábulas e de uma rígida divisão entre bons e maus — figuram nele borboletas coloridas, reizinhos mandões e meninos que criam palavras esquisitas. Tipos que, por meio de uma linguagem lúdica e direta, passam noções de igualdade racial, democracia e liberdade de expressão.

“Tenho impressão que todos meus leitores passaram antes pela Ruth, que os conquistou como amantes de livros”, comenta o escritor Pedro Bandeira, também um campeão de vendas, sobretudo na área de infantojuvenis. “Ela não só fez, como abriu portas, formando leitores a partir dos cinco anos, que começam a gostar da língua e das histórias que podem montar. Ruth criou o cânone da literatura brasileira que nós fazemos hoje.”

Tal trajetória inspirou uma exposição no Itaú Cultural, em São Paulo. A Ocupação é formada por livros originais, monóculos com fotos de família e vídeos que resgatam memórias da autora, conhecida como encantadora de palavras, cujo idioma quase nativo é o “criancês”. “Ruth cria, desde 1969, uma obra com vários aspectos marcantes”, observa a equipe de curadoria do Itaú Cultural. “Primeiro, uma linguagem direta, adequada a cada faixa etária, hábil em brincar com palavras, sons e imagens. Segundo, uma versatilidade de temas: Ruth fala de descoberta, de ciência, do medo e de outros sentimentos, de autoritarismo e de liberdade, e sabe comunicar tudo isso (e mais) de dentro do universo do seu leitor.”

Ruth Rocha, 95 anos | © André Seiti / Fundação Itaú
Ruth Rocha, 95 anos | © André Seiti / Fundação Itaú

Tal intimidade com o universo infantil foi construída aos poucos. Formada em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (curso que lhe possibilitou ter aulas com o historiador Sérgio Buarque de Holanda, que viveu entre 1902 e 1982), Ruth exerceu entre 1957 e 1972 a função de orientadora educacional no Colégio Rio Branco, iniciando sua interação com as crianças. Ao seu lado, atuando como professora, estava sua então cunhada Ana Maria Machado, hoje também reconhecida como autora de uma obra fundamental para o público infantil.

Sua base educacional possibilitou que se dedicasse à escrita de artigos para a revista Claudia, da Editora Abril, a partir de 1967, sobre o tema da educação. Um texto específico despertou atenção dos jornalistas da redação, desejosos de conhecer a autora de um artigo sobre o método da pedagoga argentina, naturalizada brasileira Ana Maria Poppovic (1928-1983), que determinava a maturidade mental de cada criança. A matéria também provocou a chegada de uma enxurrada de cartas elogiosas.

No final de 1968, a Abril lançou uma revista infantil que se tornou inovadora, a Recreio. “A proposta consistia em evitar qualquer resquício de nhe-nhe-nhem ou tatibitate na linguagem. Com textos corridos, não quadrinhos. E com autores que nunca tivessem escrito para crianças”, conta Ana Maria Machado, em texto para a exposição do Itaú Cultural. Além dela, o grupo era formado pelo historiador Joel Rufino dos Santos (1941-2015) e por Ruth Rocha.

De início, Ruth auxiliava Sonia Robatto na produção da revista. Ciente do talento da amiga, a editora insistia para que ela publicasse uma história, mas Ruth nunca aceitava. Em um certo fim de semana no sítio dela, Ruth foi surpreendida ao ser trancada em uma sala com a condição de só sair depois de escrever algo. Nasceu assim Romeu e Julieta, lançada na edição de número 10 da Recreio, que logo se tornou clássica por abordar preconceitos ao mostrar duas borboletas, uma amarela e outra azul, que não podiam brincar juntas por ser cada uma de uma cor.

Ruth Rocha na Editora Abril, na década de 1970 | © Acervo Ruth Rocha
Ruth Rocha na Editora Abril, na década de 1970 | © Acervo Ruth Rocha

“A revista Recreio foi quem me pôs no mundo”, brinca Ruth, que ainda resistiu em investir na arte da escrita. Até que um fato familiar a fez mudar de ideia. “Certo dia, eu brincava com minha filha pequena, Mariana. Tudo ia bem quando ela me perguntou por que preto é pobre. Foi quando percebi que era chegada hora de eu começar a escrever”, conta.

O momento, final dos anos 1960, era desafiador. O regime militar afiava as garras e impunha seu poder à força, especialmente com o decreto do AI-5, no final de 1968. Aos artistas, restavam a metáfora e a alegoria na criação de obras como protesto disfarçado. E Ruth Rocha, com seu senso crítico apurado e sensibilidade para se comunicar com as crianças, conseguiu subverter a literatura infantil.

No livro O reizinho mandão (1978), por exemplo, ela colocou em cena um rei mimado, decidido a mandar as pessoas calarem a boca, o que fez com que o povo se esquecesse de como falar. A história, assinalando a importância do diálogo, ganhou notoriedade graças a seu icônico bordão “Cala a boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu!”. A provocação chegou a intimidar certas escolas, que preferiram vetar a leitura da obra por seus alunos.

As reflexões sobre poder e sociedade continuaram em outras obras como O que os olhos não veem, O rei que não sabia de nada e Sapo-vira-rei-vira-sapo, série que discute censura, abuso de poder e manipulação política, do final da década de 1980. Sempre com um estilo em que poesia e humor convivem com a crítica social.

“Dessas reviravoltas operadas pelo humor na obra de Ruth, resulta um efeito que a agudeza crítica de Marisa Lajolo assinala com grande acuidade: trata-se de uma escritora que traz a realidade de seu tempo para dentro da obra e, depois de deixar o leitor sorrindo, devolve a ele essa realidade”, comenta ainda Ana Maria Machado. “Mas, na operação de rir do narrado, o leitor já está crítico e lúcido. Transformado pela leitura divertida.”

O sucesso na Abril despertou a atenção da concorrência e Ruth aceitou, em 1971, comandar a revista infantil Bloquinho, da Editora Bloch. Durou pouco e, dois anos depois, estava de volta à empresa de Victor Civita como assistente de redação, e, em menos de um ano, já era redatora-chefe. Chegou a fazer um curso de editoração nos Estados Unidos, onde aprendeu os segredos de se publicar livros e fascículos, produto que se tornou um carro-chefe da Abril na época.

No comando direto de 42 profissionais, a agora executiva Ruth Rocha comandou o lançamento de coleções infantis (Conte um conto e Beija-flor, com 50 volumes cada, marcaram época) e trouxe mais talentos para as páginas de Recreio, como Sylvia Orthof (1932-1997) e Marina Colasanti (1937-2025).

Um fato desagradável — crise na editora que resultou na demissão de várias pessoas de sua equipe — convenceu Ruth a tomar uma decisão que mudaria sua carreira: seria apenas escritora. Em seu primeiro livro, Palavras, muitas palavras..., publicado em 1976, ela já rascunhava qual seria o caminho de sua escrita. Espécie de cartilha e também livro de poemas, a obra mostra que aprender a ler não precisa ser chato, mas um ato gostoso como andar de bicicleta, brincar de boneca ou jogar bola.

Fiel seguidora de Emília, personagem de Monteiro Lobato (1882-1948), Ruth também abria espaço para a contestação, ainda que velada. É o caso de um de seus maiores sucessos, Marcelo, Marmelo, Martelo, também de 1976. Marcelo é o garoto que questiona os nomes dados aos objetos: por que cadeira se chama cadeira? E por que ele não pode se chamar marmelo ou mesmo martelo? Os censores da época não perceberam, embutida, a crítica à falta de liberdade.

“O fato de estar tão ligada a seu tempo nunca fez de Ruth Rocha uma panfletária, nem uma autora que inventa uma história apenas para disfarçar mensagens ou palavras de ordem, vício tão comum em nossos dias e tão tradicional da literatura infantil, em sua mistura de arte com didática a serviço de maniqueísmos rasteiros”, continua Ana Maria Machado.

Com Ana Maria Machado e a mãe, Esther, nos anos 1980 | © Acervo Ruth Rocha
Com Ana Maria Machado e a mãe, Esther, nos anos 1980 | © Acervo Ruth Rocha

Foi tal estilo que convenceu a Organização das Nações Unidas (ONU) a encomendar dois livros sobre direitos humanos e sustentabilidade na educação infantil. Em parceria com Otávio Roth (1952-1993), Ruth escreveu a Declaração universal dos direitos humanos para crianças publicada em 1986, e Azul e lindo, Planeta Terra nossa casa, lançado em 1990, ambos traduzidos para mais de dez idiomas e utilizados por braços institucionais da ONU em diversos países.

Em suas narrativas, Ruth prefere não falar sobre sentimentos, pois entende que os leitores mirins querem é ação, uma história concreta. Também manteve o hábito de não criar personagens sofredores. “Não se deve cultivar o pessimismo em crianças”, prega. “Claro que existem histórias tristes, mas nenhuma deve fechar com problemas insolúveis. O melhor é abrir caminhos e não fechar. Para a criança, é preferível inspirar a esperança.”

Foi o que a norteou ainda na escolha das mais de 50 obras estrangeiras que traduziu para o português, das quais destaca três: Chapeuzinho Vermelho em Manhattan (1990), da espanhola Carmen Martín Gaite (1925-2000), Amor de verdade: Desenhos para meu filho (1999), de John Lennon (1940-1980), e Lá no alto das nuvens (2005), de outro ex-Beatle, Paul McCartney em parceria com os escritores britânicos Geoff Dunbar e Philip Ardagh.

Para festejar os mais de 50 anos de trajetória de Ruth Rocha, a Salamandra, sua editora exclusiva desde 2009, prepara o lançamento de uma nova edição de Um cantinho só para mim, originalmente publicado em 2005, com textos dela e ilustrações de Ziraldo (1932-2024). Além disso, a escritora também será o tema enredo da escola de samba Mancha Verde no Carnaval de 2027.

Oportunidade para a lembrança de fatos divertidos, como a menina Ruth aprendendo a andar de bicicleta no Parque do Ibirapuera. Ou a mulher apaixonada por música, que além de tocar violão nas reuniões familiares chegou a se apresentar em casas tradicionais de São Paulo, como Café Piu Piu, no bairro do Bixiga. E ainda a escritora que pode se orgulhar de ter construído uma obra marcada por uma linguagem simples e ideias profundas.


*Matéria veiculada na terceira edição impressa da Revista PublishNews, lançada em julho de 2026, com tiragem de 10 mil exemplares e distribuição gratuita, tanto física quanto digitalmente (clique aqui para saber como acessar).

[11/09/2026 10:39:57]
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