
Os algoritmos têm feito um excelente trabalho ao convencer a humanidade de que o conhecimento pode ser reduzido a uma síntese tola. Há uma falsa crença de que um vídeo curto, um podcast em velocidade acelerada ou uma resposta produzida pela IA basta para nos tornarmos especialistas em algum tema. Na prática, a noção de que os livros não são mais tão necessários para construir um repertório sólido esbarrou em uma força contrária que provocou o aumento no número de pessoas interessadas na leitura.
Esse aparente contrassenso tem uma lógica peculiar. De acordo com o Book Fever – estudo conduzido pela Box1824 –, o aquecimento do mercado editorial impulsionado é um fenômeno que pode ser explicado pelo fato de a leitura passar a responder a algumas das principais tensões da contemporaneidade: a homogeneização promovida pelos algoritmos, a crise de atenção, o enfraquecimento do pensamento crítico e a busca por identidade em um ambiente saturado de informação. Irônico, não?!
A saturação causada pela tecnologia provocou um aumento no interesse pela desintoxicação que o ato de ler promove. Nesse novo cenário, o livro deixa de ser apenas um produto cultural para se tornar um marcador de repertório autêntico, autonomia e capital cultural. O próprio relatório observa que cresce o desejo de reduzir a dependência das recomendações algorítmicas para recuperar o controle sobre os próprios gostos e voltar a confiar no instinto e no boca a boca. Em outras palavras, o livro passa a representar algo que as plataformas digitais não conseguem entregar facilmente: profundidade, autoria e discernimento.
Mas nem todos esses elementos compõem um bom roteiro. Justamente quando esse novo valor simbólico do livro se firma, multiplicam-se os casos de obras produzidas por inteligência artificial que se apoiam na reputação construída por autores reais. Essa é a ideia de "livro parasitário". Explicando melhor: há obras que prosperam em ecossistemas vivos – livrarias, clubes de leitura, comunidades de leitores, eventos de lançamentos, ativação de marcas ou organizações de apoio à leitura. Essas articulações têm a participação ativa de humanos em torno das obras: autores, editores e leitores, por exemplo. Mas, há o livro parasitário, que não estabelece uma relação saudável com esse ecossistema. Ao contrário, alimenta-se dele sem produzir benefício mútuo.
É o caso das obras geradas por IA que utilizam o nome, a imagem, a voz ou a reputação de autores reais para parecer legítimas. O escritor francês Julien Blanc-Gras deu nome a esse fenômeno ao descobrir que a Amazon comercializava um suposto guia de viagens assinado por ele – um livro, aliás, que jamais escreveu. Pouco antes, a especialista em mercado editorial, Jane Friedman, enfrentou situação semelhante ao encontrar diversos títulos vendidos sob seu nome. Após a morte do veterano francês Léon Gautier, uma falsa biografia, repleta de erros históricos, apareceu nas plataformas digitais. O The Washington Post também documentou casos de livros técnicos que levaram mais de um ano para serem escritos e foram clonados por sistemas de IA poucas semanas após o lançamento, reproduzindo títulos, estrutura e, pasmem, posicionamento comercial.
Esses episódios revelam mais um problema causado pela IA no campo da produção literária. Os livros parasitários não roubam apenas os textos, usufruindo da identidade de autores; antes, capturam décadas de credibilidade e autoridade acumuladas. Em uma lógica na qual qualquer reputação possa ser replicada, qualquer catálogo possa ser contaminado e qualquer voz possa ser simulada, há um enorme desafio para a indústria editorial para garantir autenticidade, procedência e responsabilidade sobre aquilo que publica.
Em um mercado inundado por conteúdo sintético, o ativo mais escasso já não será a capacidade de escrever, mas a confiança no que está sendo lançado. Na perspectiva do futuro do livro, vejo que esse amanhã dependerá da capacidade dessa indústria de assegurar que, por trás de cada obra, existam uma autoria legítima, uma trajetória reconhecida e uma curadoria responsável.
*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.
**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.