
Minha última leitura é uma costura de pequenas lembranças imensas como esta: Os sorrentinos (Autêntica Contemporânea, 2025), da argentina Virginia Higa. Fui atraída pela orelha, que promete acontecimentos banais transformados em memória, e pelo trecho na contracapa, uma cena escrita que, imediatamente, se materializa em imagem na mente.
'Sua alma, sua palma'. Minha família por parte de mãe é mineira com ascendência na Itália e pimenta na casa quatro. Ditados que atravessaram o oceano em navios e chegaram aqui em traduções nem sempre precisas – como meu próprio sobrenome, Cherulli, registrado erroneamente pelo agente de imigração – sempre fizeram parte dos almoços em torno de receitas que combinam as duas melhores cozinhas do mundo. E Os sorrentinos conta a história da família de Chiche, que saiu da Itália estabelecendo-se em Mar del Plata e abriu uma trattoria cujo carro-chefe é a massa recheada, receita de família que dá título ao livro. Esqueça tudo que conhece da culinária italiana. Um sorrentino não é um ravióli, nem um rondelli, tampouco um canelone; também não o confunda com um pansotti, agnolotti ou capeletti.
A obra é filhote do magistral Léxico familiar (Companhia das Letras, 2018), de Natalia Ginzburg, citado na epígrafe. Conhecemos mais uma família pela que ela tem de mais íntimo e exclusivo e corriqueiro, e extraordinário, e explícito e oculto. Estão lá as esquisitices que toda família tem. O clima de cortiço italiano se manteve na Argentina e atravessou gerações. Difícil manter a intimidade quando (quase) tudo é servido à degustação coletiva na grande mesa em frente à cozinha.
Embora Chiche seja dado a neologismos, a prosa de Higa passa longe da soberba. Pelo contrário: é direta, leve, sem floreios, uma conversa coloquial e próxima; justamente, familiar. Com 143 páginas, Os sorrentinos é daqueles livros que você não sabe se lê rapidamente, porque a leitura flui que é uma beleza, ou se economiza, para durar mais. Humor, melancolia, ironia fina, sutilezas que relaxam a fronte. O passeio com os Vespolini é um jantar para muitos talheres e um prato cheio de inspiração para quem, como eu, bebe das idiossincrasias e miudezas do trivial para escrever sobre o que parece não ter importância, mas, no fundo, é o que nos faz humanos.
Su Amélia é escritora e publicitária. "Carioca com ascendente em Minas e lua na Itália", como ela diz, já publicou três livros: Balaio, um livro infantil disfarçado de adulto, pela Marisco Edições; Huno, um livro adulto disfarçado de infantil, pela Editora Tigrito; e Melhor não saber que horas são, um desaforo à menopausa, pela Janela + Mapalab. Escreve ocasionalmente no Instagram sobre maternidade, maturidade e o que mais lhe der na telha, e escreve também listas de tudo que tem que fazer, porque a memória já não funciona mais.


