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Executiva chinesa reflete sobre intercâmbio editorial entre Brasil e China
PublishNews, Guilherme Sobota, 05/02/2026
Yuan Nan, vice-presidente do maior grupo editorial chinês, conta como a empresa lida com as novas tecnologias e diz que os leitores são cada vez mais atraídos por conteúdos estruturados e espiritualmente enriquecedores

Yuan Nan é vice-presidente de um dos maiores conglomerados de mídia da China | © Phoenix
Yuan Nan é vice-presidente de um dos maiores conglomerados de mídia da China | © Phoenix
Dedicada a promover o desenvolvimento da indústria do livro com uma perspectiva internacional, a editora chinesa Yuan Nan trabalha no setor desde 1999 e hoje é vice-presidente da Phoenix Publishing and Media, Inc. Em 2024, o conglomerado chinês ficou em 11º no estudo Global 50 — The Ranking of the Publishing Industry, que apresenta dados e análises sobre as maiores empresas editoriais do mundo. Com sede em Nanjing, na província de Jiangsu, o grupo empresarial tem um capital superior a R$ 5,4 bilhões.

A Phoenix Publishing engloba oito editoras de livros, uma editora eletrônica e audiovisual e várias instituições editoriais especializadas, voltadas ao ensino profissional e acadêmico. Seu portfólio abrange desde humanidades e ciências sociais a literatura mundial, arte e obras infantis. Nos últimos anos, a companhia tem depositado especial energia em processos de internacionalização da literatura chinesa, e atualmente mantém relações com editoras e outras organizações do ramo em 60 países.

Na caminhada que a levou ao cargo de VP, Yuan foi editora-chefe da Yilin Press. Viu muitos dos livros que editou ganharem prêmios e tiragens superiores a 200 mil exemplares. Uma das subsidiárias da corporação, a casa editorial publica vários autores estrangeiros, como o mais recente Nobel de Literatura, László Krasznahorkai, e o brasileiro Jorge Amado.

Em entrevista exclusiva ao PublishNews, Yuan Nan fala, entre outros assuntos, sobre tendências do setor e como os mercados editoriais do Brasil e da China podem se aproximar (mais) um do outro. “Na era da inteligência artificial, o intercâmbio cultural deve abraçar a inovação e alavancar a tecnologia para melhorar a eficiência da cooperação”, afirma.

PublishNews — Quais são as principais tendências do mercado editorial chinês e como a Phoenix Publishing está se adaptando a elas?

Yuan Nan — Estamos testemunhando tendências que redefinem o panorama editorial chinês. Na era da inteligência artificial e das novas tecnologias, o setor editorial enfrenta um mercado claramente segmentado. Os leitores exigem conteúdo de qualidade superior e demonstram interesse crescente em obras especializadas e aprofundadas. Nossa estratégia é construída sobre três princípios: criar conteúdo excepcional; definir com clareza nossa identidade editorial; e buscar o marketing de precisão. Estamos desenvolvendo cursos, audiolivros e serviços de educação on-line que expandem títulos individuais em soluções de conhecimento multidimensionais, ou seja, criando experiências mais ricas para os leitores. Iniciativas como uma plataforma de aplicação de IA e uma ferramenta que apresenta capas de livros com códigos QR para acesso interativo exemplificam nossos esforços em inovação editorial integrada. Ao aproveitar big data para analisar as preferências dos leitores, apoiar decisões editoriais e melhorar a precisão do marketing, pretendemos evoluir de “leitores encontrando livros” para “livros encontrando leitores”. Os editores, como criadores e prestadores de serviço, devem abraçar ativamente a mudança tecnológica — melhorando a interatividade e oferecendo experiências culturais que sejam claras e atraentes para o público.

PN — Além disso, olhando para os próximos cinco anos, o que você aponta como os maiores desafios e oportunidades para a indústria editorial?

Numa era de excesso de informação, os leitores são cada vez mais atraídos por conteúdos estruturados, aprofundados e espiritualmente enriquecedores. Isso cria um enorme potencial para editoras com equipes editoriais fortes, autores de primeira linha e capacidade de produzir conteúdo de alta qualidade e valor. As histórias da China e do mundo devem ser contadas em ambas as direções. Entre os principais desafios está a concorrência na economia da atenção. Competindo com vídeos curtos, redes sociais e outros formatos de entretenimento, a indústria editorial deve encontrar novas formas de envolver o público mais jovem e nutrir hábitos de leitura profundos. Outro desafio é abraçar ativamente, em vez de responder passivamente, as transformações trazidas pela IA e por outras tecnologias. Garantir que o capital tecnológico contribua de forma construtiva para a criação e a proteção de direitos autorais, e, ao mesmo tempo, mitigar os riscos legais, exige agilidade, visão e uma forte cultura de aprendizagem.

PN — De que forma a Phoenix tem aproveitado a tecnologia e a inteligência artificial para potencializar sua operação e melhorar a experiência do leitor?

A Phoenix está integrando a inteligência artificial a todas as fases do processo editorial. Em termos de incubação de projetos, já organizamos duas conferências de inovação, tendo selecionado 32 projetos pioneiros, que vão desde manuais digitais e aplicações de IA até realidade virtual e bolsas de estudo. Mais de 20 desses projetos já estão no mercado, gerando receitas superiores a 300 milhões de yuans (R$ 229 milhões). O grupo lançou, também, uma formação em letramento de IA em toda a empresa e um “Programa de Talentos de Transformação em IA”, feito sob medida para preparar nossa força de trabalho para o futuro. Falando em futuro, a Phoenix vai se concentrar em três prioridades: usar a inteligência digital para levar a cultura chinesa ao mundo (o projeto de tradução Jiangsu Masterpieces, por exemplo, lançou 20 títulos em 30 edições estrangeiras em oito idiomas, alcançando 13 países); expandir as parcerias para apoiar um desenvolvimento social e econômico mais amplo; e impulsionar uma transformação digital, inteligente e ecológica no setor editorial. Nossa subsidiária Phoenix Xinhua Printing é uma das empresas-modelo da China em “impressão verde” [voltada a reduzir impactos ambientais].

PN — Como a Phoenix trabalha com suas subsidiárias editoriais?

O conselho editorial do grupo oferece planejamento e coordenação de alto nível em áreas como estratégia editorial, posicionamento profissional, desenvolvimento de marca e gestão de qualidade. Cada editora afiliada desenvolve seu próprio foco especializado, construindo fortes catálogos de produtos, cultivando marcas distintas e nutrindo equipes talentosas.

PN — Em que nível está a colaboração entre editoras chinesas e estrangeiras? No caso da Phoenix, existem parcerias das quais você se orgulhe particularmente?

A internacionalização é uma das seis prioridades estratégicas do Phoenix Publishing & Media Group. O grupo mantém fortes parcerias com instituições editoriais de renome em mais de 60 países e regiões, incluindo Springer Nature, Taylor & Francis, Brill e Peter Lang Group. Todo ano, o grupo vende os direitos autorais de mais de 450 livros chineses e traduz mais de 400 obras internacionais na China. A partir de Chicago, o Phoenix International Publishing vende por ano mais de 10 milhões de livros infantis. O projeto Phoenix Bookshelf — que constrói estantes com livros da editora em instituições ao redor do mundo — tornou-se uma importante janela para leitores nacionais e internacionais compreenderem a China moderna e contemporânea. Também temos uma equipe de cerca de 100 profissionais altamente qualificados e especializados em publicação internacional. As equipes são ativamente encorajadas a participar de grandes feiras internacionais do livro, como as de Londres e Frankfurt. O grupo apoia e promove projetos de publicação premium voltados para o exterior. Estabeleceu uma base de dados de especialistas de tradução de alta qualidade, o “Phoenix International Publishing Translation Experts Database”, e planeja iniciativas como o “Foreigners Writing on China Project”, desenvolvendo recursos para traduções multilíngues. Olhando para o futuro, a Phoenix visa expandir ainda mais suas parcerias globais em publicação científica, educacional e de humanidades.

PN — Como intensificar a relação entre editoras chinesas e brasileiras, de modo a se tornar um trunfo para ambos os lados?

Coleção de Jorge Amado publicada na China pela Yilin Press | © Phoenix
Coleção de Jorge Amado publicada na China pela Yilin Press | © Phoenix
Em 2016, a Yilin Press lançou uma série de obras de Jorge Amado. Na China, leitores passaram a se referir ao autor como “o Lu Xun do Brasil” [Lu Xun foi um escritor clássico do modernismo chinês]. Por meio da literatura, Amado desempenhou um papel importante na formação da identidade do Brasil e na comunicação de sua imagem no exterior. Cito isso para dizer que, para aprofundar a cooperação, o primeiro passo deve ser a colaboração quanto ao conteúdo. Por um lado, isso significa traduzir e publicar sistematicamente — um do outro — as obras literárias clássicas, os principais títulos acadêmicos e os livros infantis de alta qualidade. Assim, os leitores de um país obtêm uma compreensão mais profunda da herança cultural e do pensamento contemporâneo do outro. Pode-se, ainda, desenvolver projetos editoriais temáticos em torno de questões globais, como mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável e inovação tecnológica. Modelos de cooperação como “livros + exposições” também poderiam ser explorados, juntamente com a tradução de títulos brasileiros. Por exemplo, uma ideia é pegar exposições culturais relevantes do Brasil e introduzi-las na China, onde seriam apresentadas off-line em colaboração com museus ou outros espaços culturais.

PN — Interessante…

Os dois lados poderiam co-organizar eventos especiais de promoção de direitos autorais em grandes feiras, como a Feira Internacional do Livro de Pequim (BIBF) e a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, criando assim mais oportunidades de cooperação. A expansão do alcance de mercado também requer o uso ativo de plataformas de feiras internacionais do livro. Renomados acadêmicos brasileiros poderiam ser convidados a participar de palestras ou debates com acadêmicos chineses. Outra ideia seria organizar clubes de leitura em universidades ou livrarias. Penso também na possibilidade de, num momento apropriado, os dois lados se engajarem no desenvolvimento de plataformas e soluções de publicação digital localizadas. Ao oferecer produtos digitais interativos e acessíveis, é possível atrair um público jovem mais vasto e injetar vitalidade na cooperação editorial entre China e Brasil.

*Matéria veiculada na segunda edição impressa da Revista PublishNews, lançada em novembro de 2025, com tiragem de 10 mil exemplares e distribuição gratuita, tanto física quanto digitalmente (em breve). Quer contribuir financeiramente com o canal? Clique aqui.


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[05/02/2026 09:59:27]
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