
“O passo para o livro infantil veio a partir da percepção de que nossas práticas artesanais, o cuidado com o tempo do fazer e com a materialidade do livro conversam diretamente com a forma como as crianças se relacionam com o mundo”, diz a editora Yara Fers, fundadora da Arpillera. Nas feiras, as crianças ficam alucinadas quando percebem que aquele livro é diferenciado, com novas texturas e aspecto sensorial.
Yara adianta que os três títulos apostam na poesia, na imagem, no silêncio e na possibilidade de múltiplas leituras, e não subestimam a inteligência das crianças. Todos os livros foram confeccionados artesanalmente, com capa em papel Rives 250 gr e miolo em papel Sundance Warm White Felt 176 gr. Ao aplicar tecido, fazer um detalhe em papel vegetal ou introduzir um pop-up, a Arpillera contribui com a proposta de elevar o livro ao patamar de objeto artístico.
A editora também comenta sobre a importância das políticas públicas. “Ter o apoio de editais públicos é fundamental para que projetos como esse existam, circulem e cheguem a espaços que muitas vezes não têm acesso a livros artesanais ou a produções fora do eixo comercial”, enumera Yara. A Coleção Agulhinha saiu do mundo das ideias com recursos dos editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia e apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado, via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura.
“Esperamos que a Agulhinha contribua para ampliar o repertório das infâncias, levando literatura de qualidade para escolas, bibliotecas, mediadores e projetos de leitura, especialmente no Nordeste. Em um tempo de excesso de telas e estímulos digitais, o livro físico, quando pensado como experiência, convida à pausa, ao toque, à escuta e à imaginação. No caso da literatura infantil, isso se torna ainda mais potente”, pontua Yara Fers.
O poder mágico das histórias para crianças
Em O vestido de poá lavanda, Márcia Mendes conduz quem lê a uma reflexão sobre o tempo a partir da amizade entre uma agulha e uma linha, com ilustrações de David Holanda. Já em Cinco pedrinhas, de Ana Paula Mira, ilustrado por Yuri Ferraz, a narrativa poética evoca a passagem do tempo e o desaparecimento de certas tradições. Também ilustrado por David Holanda, o livro Pão, chão, coração, de Jacqueline Meire, presta uma homenagem afetiva aos trabalhadores informais que atravessam o cotidiano dos territórios.
Filha de costureira, Márcia escreve desde os dez anos e diz que seu livro “é uma narrativa que brinca com o tempo, costurando fio a fio pela memória da menina nascida e criada no interior da Bahia”. A Bahia, de fato, está muito presente nos primeiros títulos da coleção. Ana Paula conta que as memórias de sua infância vêm de Três Braços, um lugarejo onde morava um tio querido. “A casa ficava próxima a um rio. À noite, o barulho das águas embalava sonhos e fantasias. Havia um redemoinho nesse rio, e achávamos que ia dar no reino das sereias. Um privilégio, uma infância assim”.
“Cada texto, ao encontrar seu leitor, desemboca em uma experiência única, pois a leitura vai depender muito do mundo interno de cada um. O livro vai para o mundo, e cada mediador vai dar seu ‘tempero’ ao que lê, seja com os olhos, seja com os ouvidos, seja com o coração. Boas histórias para as infâncias têm um poder mágico de projetar e, ao mesmo tempo, de centrar. Isso é engraçado, não é?”, provoca Jacqueline, que desde pequena sentia vontade de escrever um livro.

