
O escritor Rafael Zoehler foi o vencedor do Prêmio Jabuti da categoria de Romance de Entretenimento pelo livro As fronteiras de Oline (Patuá) essa semana. A cerimônia da premiação, organizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), ocupou pela primeira vez na história o palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A obra vitoriosa narra a história do Senhor Oline, que desempenha a função de Guarda da Fronteira, posição que ocupa por "vocação, herança e cabresto". Ele é encarregado de manter cada país em seu devido lugar. No romance, Oline é "um ser que vive pelo trabalho e se orgulha do histórico impecável no cumprimento do dever. Um legítimo homem-função".
As fronteiras de Oline é o primeiro romance de Zoehler que divide a vida entre diversas formações. É engenheiro, publicitário e escritor. Sonha com um mundo onde não precise escrever mini biografias de si mesmo. Pela Patuá, ele publicou também o volume de contos Testado em animais. Além do Jabuti, o romance também é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e do Prêmio Candango de Literatura.
"Não é sempre que um livro independente rompe tantas barreiras e chega tão longe. Isso fala muito sobre a força da literatura feita hoje no Brasil fora do eixo comercial das grandes editoras", afirma Eduardo Lacerda, editor da Patuá.
Rafael Zoehler respondeu às Três perguntas do PN. Leia a entrevista:
PublishNews — Qual foi a sensação ao ver seu nome entre finalistas de importantes prêmios literários? O que esse tipo de reconhecimento significa?
Rafael Zoehler — Olha, sendo muito sincero, fiquei em choque. Não esperava. Recebi o e-mail sobre os semifinalistas do Jabuti, que foi o primeiro a sair, enquanto estava fora de casa e não consegui abrir a lista pelo celular. Cheguei e fui direto ver o site no notebook com um pensamento meio “deixa eu ver quem chegou lá”. Eu não esperava estar no meio. De jeito nenhum. E me achei lá. Daí veio o Prêmio São Paulo e o Prêmio Candango pra somar no meu estado de choque. Pra mim, escrever é um ato egoísta. Eu sou meu leitor e meu crítico. E, como escrevo pra dentro, sempre duvido se o texto está bom. Se vale a pena ler. Se alguém vai gostar. Chegar como finalista nesses prêmios é um alô que a literatura me manda dizendo que talvez eu tenha acertado em algum lugar. Um lembrete pra continuar.

PN — Como você enxerga a escrita dentro da rotina? De que forma você a encaixa em meio a outros projetos e com seu trabalho na publicidade?
RZ — Muito simples: não encaixo. No momento não tenho conseguido conciliar de jeito nenhum. Durante a pandemia, todo mundo precisou sacrificar alguma coisa. No meu caso, foi a literatura. Depois do covid, leio e escrevo muito devagar. Além disso, o trabalho em agência tem exigido muito de mim nos últimos anos. Hoje a literatura é um convite que eu, medroso, teimo em recusar.
PN — O seu livro fala sobre jornadas, fronteiras e limites. O que fez com que tivesse vontade de escrever um romance sobre o tema?
RZ — Queria escrever um livro sobre trabalho. Sobre como o trabalho pode acabar se tornando toda a sua vida. E queria fazer isso porque o trabalho estava fazendo isso com a minha. A história começa assim, mas ela foi me levando pra outros lugares. Eu fui descobrindo a história conforme ela acontecia. Muitas vezes eu tinha algo planejado e, no meio de um capítulo, o Senhor Oline me conduzia pra outro lugar. Então foi uma jornada dentro do livro e fora dele também. Do Senhor Oline e minha. Todo livro é pessoal.


