Publicidade
Três Perguntas do PN para Gabriel Abreu, autor de 'Triste não é ao certo a palavra'
PublishNews, Guilherme Sobota, 11/5/2023
Escritor carioca lança seu romance de estreia pela Companhia das Letras em São Paulo nesta quinta-feira (11)

Estreias literárias chanceladas por grandes editoras são sempre motivo de comentários e expectativas, e com o escritor carioca Gabriel Abreu e o seu romance Triste não é ao certo a palavra (Companhia das Letras) não é diferente. Nascido em 1993, com cursos de especialização em literatura, artes e pensamento contemporâneo na PUC-Rio e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Gabriel vem misturando experiências na dramaturgia, nas artes visuais e, agora, na literatura. Ele lança o livro nesta quinta-feira (11), em São Paulo, na Livraria da Tarde (Rua Cônego Eugênio Leite, 956, Pinheiros), em um bate-papo com a escritora Aline Bei.

Talvez aquela formação múltipla seja o que empreste ao livro de Gabriel Abreu sua forma bastante apurada. O personagem narrador, G., tenta lidar com a ausência da mãe quando encontra uma caixa com um diário, fotografias e cartas recebidas por ela. Ele então passa a explorar esses elementos para reestabelecer a relação, mas também para, de alguma forma, tentar compreender a própria identidade. O que se constitui então é um quebra-cabeças que o escritor vai montando com habilidade incomum em um romance de estreia.

Abreu respondeu às perguntas do PublishNews sobre o romance por e-mail.

PublishNews – O livro explora em sua própria forma a discussão das fronteiras entre ficção e não ficção. Como foi o processo de montar esse “quebra cabeça” literário?

Gabriel Abreu – O livro surge a partir de um gesto: a escrita de uma carta para minha mãe, que vinha vivendo um processo neurodegenerativo há alguns anos. A partir desse desejo de comunicação (e de sua impossibilidade), surgiram outras descobertas: Um diário escrito pela mãe na voz do filho durante seu primeiro ano de vida; dezenas de cartas recebidas por ela durante as décadas de 70 e 80; centenas de fotografias de família. A partir daí, tornou-se praticamente impossível não trabalhar com esses materiais. Naquele arquivo, encontrei não apenas uma última possibilidade de contato com minha mãe, mas também (e principalmente) a chance de recompor (compor novamente, reordenar, reelaborar) a memória que vinha se perdendo. Na lógica desse jogo, o signo do quebra-cabeça fez-se muito presente. A escrita acontecia através do estudo das peças disponíveis e das possibilidades de encaixe. A mãe concebendo a voz do filho, o filho restituindo a voz à mãe. O registro do surgimento do filho (pela fala, locomoção, cognição), o registro do desaparecimento da mãe. A busca pelo remetente nas cartas guardadas, a atribuição desse mesmo papel de interlocutor ao filho. Aos poucos, a imagem que ia se formando nesse puzzle deixou de dizer respeito a qualquer verdade ou ambição biográfica. Bem como acontece com o processo da recordação, o quebra-cabeça foi revelando-se insolúvel, irreconciliável com a própria imagem original. O objetivo passou a ser o próprio jogo, suas regras inventadas, as tentativas das peças. Nesse sentido, o título do livro me parece traduzir perfeitamente a sensação de ambiguidade que me assombrava durante a pesquisa e a escrita, essa duplicidade da presença e da ausência que existe no processo da rememoração. Triste era a palavra, mas não exatamente, assim como a mãe era e não era a minha, como o filho era e não era eu, como tudo é e não é ficção. Triste não é ao certo a palavra traduz esse movimento de tentativa e fracasso que permeia o livro, que move ele em frente e em círculos.

PublishNews – As discussões centrais do livro envolvem, claro, a relação entre filho e mãe. Mas a construção do personagem G. também chama a atenção do leitor ao suscitar reflexões características do contemporâneo – e que poderiam ser criticadas, imagino, por uma parcela da discussão estética atual, de forte tendência identitária. Essa foi uma preocupação sua na construção deste personagem (ou do livro de maneira geral)?

Gabriel Abreu – Sim, porém essa preocupação eventualmente deu lugar à vontade de, tratando de uma experiência muito íntima e particular, falar também de uma experiência coletiva, humana. Como em mais um encaixe de peças, na busca por recompor a identidade da mãe, G. acaba inevitavelmente questionando sua própria identidade. A ele é dada a chance de humanizar a mãe para além do papel hierárquico na família, de olhar para essa figura em sua individualidade e complexidade, e de se questionar quem foi a mulher antes da maternidade. Esse processo de separação, de descolamento, vem acompanhado de um espanto, um desejo de olhar também para si, para dentro, portanto me pareceu natural que G. seguisse esse caminho.

– Você está chegando agora ao mercado editorial profissional. Como foi o seu caminho nesse campo até aqui?

Gabriel Abreu – Sinto-me muito bem acompanhado nesta entrada. Sempre busquei me cercar de pessoas que admiro, que me ensinam e inspiram. Em todo o processo de escrita, fiz questão de ter essa companhia, fosse participando de oficinas, compartilhando os movimentos com amigos, mandando o livro recém-finalizado para leitoras em quem confio. Foram essas pessoas que me deram coragem para seguir escrevendo, que me fizeram enxergar que o texto estava pronto, que me ajudaram a fazê-lo chegar onde ele podia chegar. Entro no mercado imensamente grato a essas pessoas, muito certo do poder de criar no coletivo e comprometido a retribuir os bons ventos adiante.

[11/05/2023 08:47:02]
Matérias relacionadas
"Tive a percepção da existência de um método Sueli Carneiro ao ler a biografia do Tim Maia, do Nelson Motta. A cada página lida, eu pensava em Sueli e em todas as singularidades dela", recorda
Filme inspirado no livro homônimo do xamã Davi Kopenawa e do antropólogo francês Bruce Albert oferece uma imersão profunda na cosmologia do povo Yanomami
"Fui atraída pela orelha, que promete acontecimentos banais transformados em memória, e pelo trecho na contracapa, uma cena escrita que, imediatamente, se materializa em imagem na mente", diz a escritora e publicitária
Leia também
"Tive a percepção da existência de um método Sueli Carneiro ao ler a biografia do Tim Maia, do Nelson Motta. A cada página lida, eu pensava em Sueli e em todas as singularidades dela", recorda
"Fui atraída pela orelha, que promete acontecimentos banais transformados em memória, e pelo trecho na contracapa, uma cena escrita que, imediatamente, se materializa em imagem na mente", diz a escritora e publicitária
Na véspera do Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, celebrado neste sábado, 7 de fevereiro, o PublishNews conversou com o escritor ativista, quase 50 livros publicados