Flin 2026 supera expectativa de público e se consolida no calendário fluminense
PublishNews, Guilherme Sobota, 17/08/2026
Evento reuniu 13 editoras locais, três livrarias da cidade e 257 escritores independentes, com nomes de Niterói, Rio de Janeiro, Maricá, Itaboraí e São Gonçalo

Fernanda Torres na Sala Nelson Pereira dos Santos, no encerramento da Flin 2026 | © Fernando Cascardo
Fernanda Torres na Sala Nelson Pereira dos Santos, no encerramento da Flin 2026 | © Fernando Cascardo

NITERÓI (RJ) — A Festa Literária Internacional de Niterói (Flin) superou a expectativa de público da própria organização e estima ter recebido cerca de 50 mil pessoas ao longo de quatro dias (13 a 16 de agosto) no Reserva Cultural, centro de cultura da cidade fluminense. Com programação robusta e homenagem a Lélia Gonzalez, o evento também reuniu 13 editoras locais, três livrarias da cidade e 257 escritores independentes, com nomes de Niterói, Rio de Janeiro, Maricá, Itaboraí e São Gonçalo.

Promovida pelo poder público (organizada pela Fundação de Artes de Niterói, ligada à prefeitura da cidade), a Flin passou por uma reformulação e ampliação em 2025, depois de ter uma edição menor realizada em 2023. Neste ano, a Festa reuniu mais de 200 convidados e 62 horas de programação, distribuídas em quatro palcos simultâneos — segundo a organização, o orçamento para a Festa foi de R$ 3 milhões.

Ao todo, as três livrarias (Livraria Leitura, Blooks e Livraria Ponte) venderam quatro mil livros. A Festa também realizou com as editoras locais o cadastro para o recebimento do Cartão Araribóia, moeda social de Niterói, com o objetivo de aproximar a política cultural cidade à economia do livro. A Flin 2026 também contou com apoio institucional da Academia Brasileira de Letras (ABL) que doou 1,5 mil livros durante a festa, e da Biblioteca Nacional.

O modelo de participação para editoras e livrarias neste ano ainda foi voltado para iniciativas criadas na cidade, com abertura de editais e convites, embora a Festa esteja aberta a receber empresas de outros locais nos próximos anos. Para os editores niteroienses, o evento não cobra o uso do espaço, e o saldo é positivo, segundo os profissionais ouvidos pelo PublishNews.

"Nós participamos como editora da cidade em todas as três edições e a cada ano a Flin fica melhor!", atesta o autor, editor e livreiro Bruno Drummond, da Bloco Livros. "Desde a programação, espaços para os encontros e os estandes para autores e editoras. A festa vem ganhando mais público, o que é bom pra todo mundo. Além de editora, Bloco Livros é também uma pequena livraria, galeria e cafezinho em 10m2 no Centro Comercial Icaraí (o tradicional “shopping das galinhas” na cidade). E a Flin é uma grande oportunidade de divulgar o espaço. Para além das vendas (esse ano batemos o recorde!), o que a festa faz de melhor é proporcionar o encontro entre autores da cidade e novos leitores. Um movimento que ainda pode ser aperfeiçoado com mais mesas de escritores de Niterói e autores convidados."

Para a editora e jornalista Chris Fuscaldo, da Garota FM Books, esta edição confirma o fato de que a cidade tinha carência de um bom evento dedicado à literatura. "Desde o ano passado, fora da prefeitura e me dedicando à minha carreira como escritora e editora, estou levando a Garota FM Books ao evento, e posso afirmar que está sendo, depois da Flip, a melhor festa literária que conheço. Para as editoras, é uma maravilha termos estande gratuito, produtores dedicados ao nosso bem estar... É um incentivo importante a esse mercado tão difícil em relação a retorno financeiro. Vendemos bem e tivemos a chance de espalhar mais ainda nossa marca", atesta a editora, que ajudou a criar a primeira versão da Festa quando estava à frente do Niterói Livros, em 2023.

Público teve excelente participação nas mesas da Flin 2026 | © Flin
Público teve excelente participação nas mesas da Flin 2026 | © Flin

A Risco Editora, do sócios Gabriel Calfa e Marcus Leopoldino, vendeu 170 HQs, número bom para o padrão da casa. "Nós da Risco adoramos o evento", diz ao PublishNews Marcus Leopoldino. "Eu já tinha ideia da importância desde a última edição, mas naquela vez tinha participado com autor independente — com horário fixo para expor. Mas o espaço para as editoras estava ótimo, coube tudo, pudemos customizá-lo com nossa cara. O público estava maravilhoso todos os dias, pessoas muito interessadas nos livros, tomando conhecimento ali na hora da nossa existência e já se interessando e virando fã. Apesar de não ter tido tempo para aproveitar a programação, achei os nomes convidados muito interessantes, o que com certeza contribuiu para o bom público. A equipe de apoio foi super atenciosa deixando nosso trabalho muito confortável. Vendemos cerca de 170 HQs, que é um número muito bom para nossos padrões. Não cobre os números de uma Bienal do Rio ou CCXP (em SP), mas considerando que é do lado de casa e não há custo de inscrição a FLIN já se torna um evento fundamental para nossa agenda!", explica. Para ele, o espaço dos autores poderia ser repensado. "Apesar de agora ter um espaço específico e melhor localizado, acho esse formato atual ruim, os autores independentes mereciam um "artists' alley" no formato dos eventos de quadrinhos."

Encerramento

No domingo, 16 de agosto, dia de encerramento da festa, dois dos momentos mais aguardados da programação levaram o público a ocupar os espaços da FLIN: Emicida e Fernanda Torres. Emicida participou da conversa "De onde cê vem?", mediada pela jornalista Luciana Barreto, sobre a criação de narrativas a partir dos lugares de onde viemos, a infância, a rima, a composição e a formação de novos imaginários. "Creio que a essa altura da minha construção artística, as pessoas já fazem uma associação direta entre a minha trajetória e a literatura, e isso faz com que eu me sinta realizado. Mas tem uma outra dimensão muito mais profunda que é o fato de o evento homenagear Lélia Gonzalez. Sem ela não existiria Emicida, eu já disse isso por aí algumas vezes, então me sinto realmente honrado quando de algum modo minha história volta a se encontrar com a dela", disse o cantor, compositor e escritor.

Fernanda Torres encerrou a programação com uma leitura do primeiro capítulo de A Glória e seu cortejo de horrores, seguida de um bate-papo sobre a obra e seu processo de criação. “Quando fui escrever, muito do meu treino de atriz entrou no processo. Existe um exercício muito grande de se colocar no personagem, pensar o que ele faria, o que responderia e enxergar o mundo pelo ponto de vista de outra pessoa”, contou.

Em comunicado, o prefeito da cidade, Rodrigo Neves, destacou o crescimento do evento. "Vamos seguir planejando e investindo nesse projeto porque ele tem tudo a ver com a cidade que queremos construir, que compreende a cultura como um elemento indissociável do seu desenvolvimento. A festa foi abraçada pelos niteroienses e, por isso, veio para permanecer", prometeu.

Conceição e Eliana

Entre os diversos convidados, uma das principais mesas foi realizada na noite do sábado (15), que reuniu Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz, com mediação da escritora niteroiense Sol de Paula.

Além de conversarem sobre suas infâncias e compartilharem histórias familiares — inspiradas pelo livro Escreviventes (Pallas Editora), organizado pelo quadrinista e escritor Estevão Ribeiro e lançado recentemente —, as autoras também reforçaram falas sobre a literatura produzida por pessoas negras no Brasil, rejeitando etiquetas como a de "identitarismo".

Eliana Alves Cruz, Sol de Paula e Conceição Evaristo na Flin 2026 | © Divulgação
Eliana Alves Cruz, Sol de Paula e Conceição Evaristo na Flin 2026 | © Divulgação

Eliana contou que estava na Flipelô e viu uma frase do Jorge Amado em que ele dizia "com as minhas palavras, não foi exatamente assim que ele disse, mas foi algo como: "Não passa pela minha cabeça tentar ser universal. Não passa pela minha cabeça tentar ser algo que padronize ou que entre em um determinado padrão. Eu sou eu, a Bahia, os meus pertencimentos e as minhas referências". Eu acho que é isso: a gente escreve o que nós somos, as nossas percepções e as nossas afirmações. Como vivemos em um país que nos nega — nega a maioria —, esse carimbo de 'escritora negra' é uma afirmação política que durante muitos e muitos anos foi muito necessária para podermos, realmente, firmar um lugar em um mercado excludente e construir uma certa unidade e irmandade. Mas quanto ao conteúdo do que a gente escreve... Deixa eu falar uma coisa para vocês: o Flaubert não é universal, não. Ele está falando da realidade dele. O Dostoiévski é russo, está falando da realidade dele, da Rússia, daquele pedaço de tempo. Então, que bobagem foi essa que a gente inventou de que as pessoas conseguem ser tudo em todo tempo e em todo lugar?", comentou.

"Então, veja: 'identitarismo'... Eu detesto essa palavra com todas as minhas forças, porque acho que é muito usada para deslegitimar. Essa é uma grande reflexão do nosso tempo, do momento atual, um grande debate. Só que acho que esse debate é feito de forma muito rasa, baseado em redes sociais e em falas de pessoas que, às vezes, jamais leram um livro. Acho que precisamos começar a sair da superfície das coisas e mergulhar no que isso realmente significa. O que eu quero dizer quando uso essa palavra? É uma reflexão densa que todos e todas nós precisamos fazer, porque ela envolve as faíscas do que é o Brasil, do que queremos para o nosso país e de quem somos nós. Essa é uma pergunta que temos que nos fazer sempre", complementou.

Para Conceição, o discurso que mais fale de um povo ou de uma nação talvez seja o discurso literário. "Talvez o discurso histórico não dê conta, o discurso religioso também não me conta. Talvez o discurso literário dê conta justamente pela presença, pela ausência e pela maneira de narrar e construir seus personagens. Como as personagens negras são construídas na literatura brasileira? Como os homens negros, as mulheres negras, os homens brancos e as mulheres brancas são construídos? Como as relações afeto-sexuais são narradas na literatura brasileira? Eu acho que a literatura pode nos responder a isso", comentou.

Ela nota que costumam dizer que os escritores negros fazem uma leitura identitária. "Meu Deus, os autores e autoras brancos sempre tiveram! Mas quando se trata de uma narrativa criada a partir da perspectiva indígena, a partir da perspectiva de mulheres, a partir da perspectiva dos pobres ou a partir das nossas experiências, aí vem essa classificação do 'texto identitário'. Então por que vi o Becos da memória encenado em Paris, e muito bem encenado? Aí eu vou dizer: que bom, então eu faço uma literatura universal, sim! Porque é uma literatura, Eliana, que toca as pessoas a partir da sua condição humana. Eu acho que a principal experiência humana — uma experiência que pode ser atravessada pela literatura — é a experiência da solidão."

Editoras participantes da Flin 2026:

  • Pictos Editora
  • Garota FM Books
  • Bloco Narrativo
  • Dowslley Editora
  • Se Liga Editorial
  • Editora Pé de Palavra
  • Risco Editora
  • Editora Itapuca
  • Vira-Tempo Editora
  • MoMa Editora
  • Editora Comunitá
  • Editora Violeta
  • DB Editora

*O jornalista viajou a convite da Festa Literária Internacional de Niterói.

[17/08/2026 12:59:46]
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