
Durante décadas, José Castello ajudou a formar leitores e a construir reputações na literatura brasileira. Como jornalista e um dos críticos literários mais respeitados do país, acompanhou de perto gerações de escritores, escreveu perfis marcantes e biografias de nomes como Vinicius de Moraes (1913-1980) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999), antes de consolidar também uma obra própria de ficção, premiada em 2011 com o Jabuti por Ribamar, que saiu pela Bertrand. Porém, no recém-lançado Histórias miseráveis (Maralto Edições), o olhar do autor busca personagens quase sempre anônimos, que revelam um país rachado por um abismo social cada vez mais profundo.
Aos 75 anos, o jornalista e escritor carioca fala ao PublishNews sobre o Brasil retratado em suas crônicas, explica por que considera a escrita o seu destino e comenta, com sinceridade, que se distanciou da produção literária contemporânea: "Me sinto totalmente incompetente, hoje, para produzir um olhar distante e dizer qualquer coisa que preste a respeito dela. Só posso comemorar que ela exista e desejar que escrevam e publiquem cada vez mais". Leia a entrevista:
PUBLISHNEWS — As crônicas de Histórias miseráveis olham para pessoas e situações que podem ser invisíveis no dia a dia. O que esses personagens anônimos ajudam você a entender sobre o Brasil de hoje?
JOSÉ CASTELLO — O Brasil está dividido por um abismo. Passe algumas horas caminhando pelo Morro do Alemão, ou pela Rocinha. Depois passe outras horas visitando as coberturas de Ipanema, ou os bares do Leblon. São dois mundos incompatíveis. Dois países distintos. E, infelizmente, esse abismo só se aprofunda e um país, o rico, tem cada vez mais dificuldade de ver o outro, o miserável. Fala-se muito da polarização política, como se ela fosse só efeito das redes sociais, fosse só um erro de percepção. Não é. A polarização é um efeito direto desse abismo, que se recusa a ver o outro lado e torna parte do país invisível.

PN — Você já foi repórter, crítico, biógrafo, cronista e romancista. Depois de tantos anos escrevendo, o que ainda faz você se sentar diante da tela em branco?
CASTELLO — Desde menino, a única coisa que sei fazer é escrever. A escrita faz parte de minha existência. Sou péssimo com finanças, não sei fazer coisas práticas como consertar uma torneira que não fecha, ou uma porta que emperrou, não seu nem mesmo dirigir. A escrita é meu destino. Posso escrever bem, ou escrever mal, não importa, só a escrita dá sentido à minha vida.
PN — Você acompanha a literatura brasileira há décadas, primeiro como jornalista e depois como escritor. O que mais chama a sua atenção na nova leva de escritoras e escritores que está chegando com força às livrarias?
CASTELLO — Vou talvez decepcioná-la, e também a meus leitores. Mas hoje quase não leio meus contemporâneos. Durante longos anos, trabalhando no jornalismo literário, eu tentava acompanhar de perto os principais lançamentos e me sentia obrigado a formular alguma opinião sobre eles. Hoje, dos contemporâneos, praticamente só leio meus amigos. Sei que a literatura brasileira hoje é muito produtiva, que tem grande qualidade e grande prestígio. E que há toda uma geração de novos autores que escreve e publica freneticamente. Isso é muito bom, é claro. Mas me sinto totalmente incompetente, hoje, para produzir um olhar distante e dizer qualquer coisa que preste a respeito dela. Só posso comemorar que ela exista e desejar que escrevam e publiquem cada vez mais.

