
A partir de lembranças da juventude no Centro do Rio, a artista visual e fotógrafa Índigo Braga transforma corpos trans e travestis em figuras monumentais na paisagem carioca em Ocupação Mutante (Telaranha Edições), fotolivro que será lançado na sexta-feira, dia 23 de maio, na Belle Époque, livraria e sebo fincada numa ruazinha tranquila no Méier, subúrbio do Rio. Produzida por Paulo Abrão, a obra reúne 161 páginas em que ficção científica, fotografia e crítica social se atravessam para discutir pertencimento, território e identidade.
O projeto parte de uma inversão simbólica: corpos historicamente empurrados para a margem aparecem agora em escala colossal, ocupando a cidade de maneira impossível de ignorar. Com referências ao imaginário de criaturas gigantes do cinema, Índigo sobrepõe imagens produzidas em estúdio a cenários reais da cidade, criando composições em que quatro personagens, chamadas de “Mutantes”, compõem espaços como o Largo da Carioca, a Ilha do Fundão, a Ponte Rio-Niterói e os arredores da Baía de Guanabara.
“Ao transformar corpos trans e travestis em figuras monumentais na paisagem carioca, a criação do livro também se tornou uma cartografia sentimental da minha relação com o Rio de Janeiro. Largo da Carioca, Ilha do Fundão, Ponte Rio-Niterói: Todos esses lugares já me atravessavam afetivamente. Hoje, quando passo pela Baía, ainda imagino essas mutantes gigantes ocupando a cidade. É um olhar carinhoso sobre o Rio, ainda que não necessariamente romântico”, afirma Índigo ao PublishNews.

A artista explica que o livro nasce também de um desejo de construir narrativas mais arejadas sobre corpos dissidentes. “Não retratar a violência e construir outros imaginários é uma posição política muito forte no meu trabalho artístico. A ficção pode transformar pensamento, pode fazer alguém olhar para um corpo trans por outra lente ou permitir que pessoas trans se reconheçam naquela beleza. O olhar que proponho não é neutro: não é uma câmera fantasma. É uma câmera travesti, existe um corpo por trás dela, e isso atravessa todo o livro”, diz ela, mulher trans atuante no audiovisual, ao PN.
Além do ensaio fotográfico, Ocupação Mutante traz textos de Azizi Cypriano, autora do prefácio, e Ventura Profana, responsável pelo posfácio do fotolivro. O projeto também contará com versão em audiodescrição para que pessoas cegas e com baixa visão possam acessar as imagens e ações urbanas em formato lambe-lambe espalhadas pelo Centro do Rio. Para ficar de olho!


