
O centroavante Erling Haaland, de 25 anos, é largamente considerado um dos melhores atacantes de sua geração e um fenômeno de recordes no futebol desta década. Uma das estrelas da Copa do Mundo que começará em menos de dois meses, o jogador da Noruega e do Manchester City é uma máquina de balançar redes. Um atacante “bom” costuma ter média de 0,4 a 0,6 gol por jogo. Haaland frequentemente anota entre 0,8 e 1 gol por partida, um nível de atletas contemporâneos, mas já históricos, como Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, quando estavam no auge. Haaland pode se tornar um dos maiores de todos os tempos.
Fora do gramado, o que poucos sabem é que o norueguês também faz gol de placa – ou de capa, ou de letra. Em dezembro do ano passado, o atacante arrematou em leilão, pelo valor equivalente a R$ 700 mil, uma peça literária rara: a primeira edição impressa, de 1594, das Sagas dos Reis da Noruega, que narra a história dos reis nórdicos e guerreiros vikings, escrita pelo poeta islandês Snorri Sturluson (1179–1241). A compra estabeleceu o recorde de livro mais caro da história do país.
Haaland não pôs a obra-prima da literatura norueguesa na própria estante. Há poucas semanas, no fim de março, tal qual um gol – ou um passe brilhante – decidiu doá-la à biblioteca pública de sua cidade natal, a pequena Bryne, com 13 mil habitantes, localizada a 530km da capital Oslo. Ao realizar a doação, o atleta impôs apenas uma condição: que o volume fique permanentemente em exibição para que todos tenham acesso a ele. A oferta também prevê a associação da obra a um concurso de leitura nas escolas da cidade.
É um gesto raro, sobretudo em um universo frequentemente associado a ostentação e consumo individual sem limites – mas não só este – como o dos esportistas multimilionários. Uma iniciativa que merece ser aplaudida.
Neste mês de abril, quando se celebrou, no dia 23, o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o exemplo de Haaland ilumina algo essencial — o livro como patrimônio coletivo, como bem que atravessa gerações e que, quando compartilhado, amplia seu sentido.
A data é oportuna para se lembrar que a discussão sobre leitura ultrapassa o campo simbólico. O livro permanece como uma das ferramentas mais poderosas de formação individual e coletiva: é por meio dele que se estruturam habilidades fundamentais — da alfabetização ao pensamento crítico — que sustentam tanto a cidadania quanto o desenvolvimento econômico de um país.
A relação entre leitura e educação é direta. Crianças que têm acesso precoce a livros tendem a desenvolver melhor compreensão textual, vocabulário e autonomia intelectual. Não por acaso, países com alto desempenho educacional, como a Finlândia, vizinha da Noruega de Haaland, investem pesadamente em bibliotecas públicas e na formação de leitores desde a primeira infância.
Mais do que ensinar a decodificar palavras, essas políticas constroem uma cultura em que ler é parte da vida cotidiana — um hábito que se traduz em melhores resultados escolares e maior capacidade de inovação ao longo da vida.
Essa dimensão educacional se conecta diretamente ao desenvolvimento econômico. Sociedades com maior letramento tendem a ser mais produtivas, inovadoras e menos desiguais. O livro, nesse sentido, não é apenas um bem cultural, mas um ativo estratégico. Experiências internacionais mostram isso com clareza: em Singapura, campanhas como o movimento nacional de leitura transformaram bibliotecas em centros dinâmicos de aprendizagem, integrando leitura e tecnologia; já no Reino Unido, iniciativas da National Literacy Trust articulam escolas, famílias e comunidades para ampliar o engajamento com livros, especialmente em áreas vulneráveis.
No Brasil, esforços recentes apontam nessa direção. O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada busca garantir que todas as crianças estejam alfabetizadas até o final do 2º ano do ensino fundamental, estabelecendo metas e indicadores para monitorar avanços. Alinhado a essa estratégia, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático — PNLD 2027 incorporou uma categoria específica de obras voltadas à alfabetização, reforçando o papel do livro como instrumento central nas políticas educacionais. Trata-se de um movimento relevante: ao direcionar acervos e materiais para as etapas iniciais da aprendizagem, o país ataca um dos principais gargalos de seu sistema educacional.
Ao mesmo tempo, o ambiente digital abre novas possibilidades — e novos desafios. Plataformas de leitura ampliam o acesso e reduzem barreiras geográficas, mas também levantam questões sobre remuneração de autores, sustentabilidade do mercado editorial e qualidade da experiência leitora. A lógica do consumo fragmentado, típica das telas, pode competir com a leitura profunda, exigida por livros mais densos. Além disso, modelos de negócio ainda estão em disputa, especialmente em iniciativas públicas de bibliotecas digitais, que precisam equilibrar democratização do acesso e valorização da cadeia produtiva do livro.
É nesse ponto que o direito do autor, também celebrado em 23 de abril, ganha centralidade. A proteção autoral não é um detalhe jurídico: ela garante que escritores, tradutores e editores sejam remunerados por seu trabalho, criando condições para a continuidade da produção intelectual. Sem esse equilíbrio, políticas de acesso podem se tornar insustentáveis no longo prazo, enfraquecendo justamente o ecossistema que pretendem fortalecer.
Celebrar o livro, portanto, é mais do que exaltar um objeto cultural. É reconhecer um elemento estruturante do desenvolvimento social e econômico, que exige políticas consistentes, inovação responsável e respeito aos direitos de quem produz conhecimento. Entre páginas impressas e telas digitais, o desafio contemporâneo não é escolher um formato, mas assegurar que a leitura — em qualquer suporte — permaneça viva, acessível e valorizada. Tanto quanto as sagas excepcionais das seleções e dos craques que fazem diferença dentro e fora do campo.



