Publicidade
Três perguntas do PN para Samir Mesquita
PublishNews, Monica Ramalho, 24/04/2026
Em 'Hum', uma criança sonha com a volta da guerra para reencontrar o pai. A premissa mistura fábula e realidade e constrói uma narrativa sobre ausência, silêncio e aquilo que nos escapa mesmo em tempos de excesso

Em Hum (Editora Quelônio), novo livro de Samir Mesquita, uma criança sonha com a volta da guerra para reencontrar o pai. A premissa, que mistura fábula e realidade, parte de um dado concreto — a menor cidade do mundo, Hum, fica na Croácia — para construir uma narrativa sobre ausência, silêncio e aquilo que escapa mesmo em tempos de excesso.

“Vivemos cercados por estratégias de preenchimento, com um excesso de informação, de estímulo, de presença. Mas, ainda assim, um vazio persiste. Mesmo encerrados em nossos pequenos mundos, estamos sempre em busca de algo externo, como se as respostas estivessem apenas do lado de fora. Talvez porque tenhamos desaprendido a ler os silêncios”, escreveu Samir ao PublishNews.

Entre o que falta e o que se tenta preencher, o autor nascido em Guarulhos (SP) decidiu colocar as mãos na massa e, além de escrever a história, fez o ousado projeto gráfico, com o miolo costurado sob uma lixa. Na conversa a seguir, Samir fala sobre a origem da história, o diálogo entre forma e conteúdo e o papel da ausência como motor da narrativa. Espia e corra para adquirir o seu Hum!

PUBLISHNEWS — Hum nasce de uma premissa potente — uma criança que deseja o retorno da guerra para reencontrar o pai — e de um cenário real, a menor cidade do mundo. Em que momento essa história se impôs para você? E como foi trabalhar entre a fábula e a história?

SAMIR MESQUITA — Quando descobri Hum, a cidade tinha apenas 24 habitantes, entre eles, uma única criança. Essa imagem me atravessou. À medida que eu avançava nas pesquisas sobre a cidade e a história da região, os personagens começaram a surgir, e o ritmo do texto passou a ressoar em minha cabeça. Mais do que me prender a um gênero, a narrativa foi se compondo a partir dessa pequena cidade, como uma alegoria dos nossos pequenos mundos, nos quais, muitas vezes, nos fechamos na ilusão de estarmos nos protegendo de conflitos externos, sem nos darmos conta de que, não raro, os mais decisivos nascem dentro de nós.

PN — Forma e conteúdo parecem indissociáveis no livro. Como o projeto gráfico — especialmente o uso da lixa para criar textura — se integrou à construção da narrativa?

SAMIR — Gosto de pensar o livro não apenas como suporte, mas como experiência. Neste projeto, a busca foi por esse diálogo entre os elementos da narrativa e os físicos do livro. Hum é uma cidade medieval toda feita de pedra, e esse elemento está muito presente no texto, que também possui uma linguagem seca, áspera. O projeto gráfico tenta transmitir essa aspereza e prolongá-la no corpo do livro.

A capa em lixa representa, então, os muros de Hum, que você abre e adentra a cidade. As ilustrações seguem essa mesma lógica: foram feitas com pedras, usadas como pincéis, para criar traços e texturas que remetessem a essa ideia de aspereza. Assim, o que o leitor lê, vê e sente nas mãos passa a ser uma experiência única, quase indissociável, que, acredito, traz uma nova camada de significados e sentidos para a história.

PN — A falta move os personagens de Hum. Como você construiu essa ausência como motor da narrativa? E o que ela quer nos dizer sobre o presente?

SAMIR — A falta move os personagens de Hum e, acredito, move também a todos nós. No livro, me interessava justamente tensionar essa ideia: a falta como uma força que desorganiza e impulsiona. Essa ausência atravessa não só os personagens, mas acredito que também esteja presente nos silêncios e na não linearidade do texto, no que as ilustrações insinuam e na recusa em oferecer todas as respostas. Existe, assim, um convite para que o leitor preencha essas lacunas, um leitor ativo, sem o qual a narrativa não se completa.

De certa forma, essa falta também ecoa o nosso presente. Vivemos cercados por estratégias de preenchimento, com um excesso de informação, de estímulo, de presença. Mas, ainda assim, um vazio persiste. Mesmo encerrados em nossos pequenos mundos, estamos sempre em busca de algo externo, como se as respostas estivessem apenas do lado de fora. Talvez porque tenhamos desaprendido a ler os silêncios.


Samir Mesquita nasceu em Curitiba, em 1982, e vive em São Paulo há mais de 20 anos. Formado em Comunicação e pós-graduado em Literatura, Artes e Filosofia, desenvolve uma escrita que transita por diferentes linguagens. É autor dos livros de microcontos Dois Palitos (2007) e 18:30 (2009), ambos publicados de forma independente.


[24/04/2026 10:28:20]
Matérias relacionadas
Personagem do novo livro de Ricardo Viveiros, o fundador da Universidade Zumbi dos Palmares reconta a sua trajetória na política e na educação
Com uma obra marcada pela investigação histórica, Luize tem explorado, ao longo da carreira, diferentes formas de transformar processos coletivos em narrativas particulares
"Busquei trabalhar os desconfortos de ser criança, as dificuldades enfrentadas por meninas e mulheres, e expressar, através da narrativa, da linguagem e do formato, a descontinuidade da memória", diz
Leia também
'João nunca visou o lucro ou o poder, apenas a fruição estética no mais alto grau. Por isso assombrou o planeta, mesmo cantando em português', diz o jornalista e escritor. Leia a entrevista completa!
"Sem recorrer a excessos, a narrativa mostra como certos conflitos se repetem em contextos diferentes, sugerindo continuidades entre passado e presente, mas sem apagar as diferenças entre eles", diz
"O dado do livro deixou de ser responsabilidade isolada de cadastro e passou a envolver múltiplas áreas, sinal de amadurecimento do mercado, ainda com diferentes velocidades", diz o CEO da MVB