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Jurados deixam FNLIJ e indicam inviabilidade do prêmio em 2026
PublishNews, Redação, 16/03/2026
Saída coletiva denuncia crise institucional na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil; para jurados, problemas estruturais comprometem a credibilidade da instituição

Um grupo de votantes dos prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) anunciou sua saída coletiva do júri e declarou que, nas condições atuais, não há viabilidade para a realização da premiação em 2026. Em carta pública, os signatários afirmam que a decisão foi motivada pela “gravidade da situação institucional” da entidade e por problemas estruturais que, segundo o grupo, comprometem “a integridade, a credibilidade e o patrimônio da FNLIJ”.

“Esta é uma decisão extrema, motivada pela gravidade da situação institucional e por problemas estruturais que comprometem a integridade, a credibilidade e o patrimônio da FNLIJ, instituição que por mais de 50 anos foi pilar da literatura infantil brasileira”, afirma o documento.

Os votantes também mencionam preocupação com o risco ao acervo histórico da instituição e com o que chamam de enfraquecimento institucional da fundação.

“Não podemos compactuar com o enfraquecimento institucional, o risco ao acervo histórico e o apagamento de uma história de décadas. Nosso compromisso é com a ética e com a literatura infantil e juvenil brasileira, seus autores, ilustradores e leitores”, diz outro trecho da carta.

Entre os signatários estão Alcione Pauli, Alice Martha, Aline Frederico, Ana Crélia Dias, Cristiane Santos, Elizabeth Serra, Fabíola Farias, Gláucia Mollo, João Luís Ceccantini, Leonor Werneck, Luiz Percival Brito, Margareth Mattos, Maria das Graças Castro, Maria Laura Spengler, Maria Teresa Gonçalves, Neide Santos, Patrícia Corsino, Rosa Maria Lima, Tâmara Abreu, Tânia Piacentini, Eleonora Casali, Telma Borges, Vanessa Camasmie e Vera Teixeira Aguiar.

Entre as críticas apresentadas pelos votantes também aparece a falta de diálogo com a presidência da FNLIJ, ocupada por Julio Cesar Silva desde 2021. Para a Folha de S. Paulo, o executivo afirmou que realizou reuniões com integrantes do júri em fevereiro para apresentar a situação da instituição e as medidas que vêm sendo adotadas na tentativa de recuperá-la.

Silva disse que, ao assumir o cargo, encontrou a fundação já marcada por dificuldades financeiras e entraves jurídicos. Segundo ele, os recursos atualmente provenientes dos mantenedores da FNLIJ têm sido insuficientes para sustentar a estrutura necessária ao funcionamento da entidade e do prêmio.

O presidente afirmou que a crise é anterior à sua gestão e que vem buscando alternativas para reestruturar a instituição. De acordo com ele, a fundação negocia a entrada de um novo investidor, o que poderia abrir caminho para uma recuperação financeira nos próximos meses.

Criada há mais de cinco décadas, a FNLIJ é uma das principais instituições dedicadas à promoção da literatura infantil e juvenil no Brasil e responsável por um dos prêmios mais tradicionais do setor.

Em carta pública, os votantes explicam os motivos da decisão. Leia a íntegra do documento:

"Nós, votantes dos Prêmios da FNLIJ, na condição de autores intelectuais e responsáveis pela legitimidade crítica, ética e simbólica deste prêmio, vimos por meio desta tornar pública nossa decisão de retirada coletiva da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), bem como indicar a impossibilidade de realização do prêmio no ano de 2026, diante da gravidade da situação institucional atualmente vivida pela FNLIJ.

Trata-se de uma decisão extrema, tomada após longo acompanhamento e reiteradas tentativas de diálogo com a Presidência da Fundação, motivada por problemas estruturais graves, que comprometem não apenas o funcionamento da Fundação, mas também sua missão histórica, sua credibilidade pública e a integridade de seu patrimônio material e simbólico.

Ao longo de mais de cinco décadas, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) consolidou-se como a instituição mais importante do país no campo da literatura para crianças e jovens e na formação de leitores. Criada em 1968 como a seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY), a Fundação desempenhou um papel decisivo na articulação entre autores, ilustradores, editores, educadores e bibliotecários, contribuindo para a consolidação de um ecossistema literário voltado à infância e à juventude no Brasil.

A FNLIJ foi responsável por indicar escritores e ilustradores brasileiros ao Prêmio Hans Christian Andersen — considerado o mais importante reconhecimento internacional da literatura infantil e juvenil — contribuindo para que o Brasil se tornasse um dos países mais premiados da história da distinção: Lygia Bojunga (1982), Ana Maria Machado (2000) e Roger Mello (2014), além de inúmeros finalistas, como Bartolomeu Campos de Queirós, Marina Colasanti e Nelson Cruz.

A Fundação também promoveu a presença do Brasil em espaços estratégicos do circuito mundial do livro, como a Feira do Livro Infantil de Bolonha e a Bienal de Ilustração de Bratislava. Graças a esse trabalho contínuo, gerações de leitores foram formadas e a literatura infantil e juvenil brasileira conquistou reconhecimento internacional.

Enumeramos, a seguir, os principais pontos que fundamentam nossa saída dos Prêmios da FNLIJ:

a) Ausência, até onde foi possível constatar pelos votantes, de equipe de funcionários suficiente para atender às diferentes demandas do acervo, inclusive durante o processo de avaliação.

b) Processo que percebemos como um enfraquecimento institucional, acompanhado da ausência de respostas institucionais claras sobre planejamento diante da crise.

c) Apagamento institucional, já que o site e o e-mail institucionais encontram-se desativados há longo período, aparentemente em razão de questões administrativas relacionadas à sua manutenção, tornando inacessíveis uma história de décadas, documentos públicos e informações básicas sobre a instituição e impossibilitando contato de pessoas e instituições com a Fundação.

d) Risco ao acervo histórico do Prêmio, pois, a despeito da atitude responsável e acolhedora da Biblioteca Nacional, o acervo de 51 anos de Prêmios FNLIJ, composto por dezenas de milhares de exemplares, encontra-se em situação que nos parece preocupante. Atualmente armazenado no subsolo da Casa da Leitura, o acervo não dispõe, até onde temos conhecimento, de condições adequadas de preservação, potencialmente exposto a riscos ambientais, inclusive de inundação, o que pode ameaçar de forma irreversível um patrimônio fundamental da história do livro infantil e juvenil no Brasil. Reitera-se que a responsabilidade pela manutenção do acervo é exclusiva da FNLIJ, uma vez que a Biblioteca Nacional ofereceu o espaço para acolhimento, mas não tem condições de arcar com custos de manutenção de integridade.

e) Fragilização da relação institucional com o IBBY e risco de perda de representatividade internacional. Nos últimos anos, a Fundação não tem exercido plenamente suas funções tradicionais junto ao IBBY, deixando de enviar indicações ao Prêmio Hans Christian Andersen, sendo a FNLIJ uma das seções nacionais mais antigas da instituição.

As observações relatadas refletem a avaliação coletiva dos votantes do prêmio, construída a partir de sua experiência direta com o funcionamento recente da instituição e das informações institucionais às quais tivemos acesso.

Diante desse conjunto de fatos, e tendo em vista a saída de Elizabeth Serra da Secretaria Geral da FNLIJ em 2024, afirmamos de forma categórica: não há condições éticas, institucionais nem materiais para a realização dos Prêmios da FNLIJ de Literatura Infantil e Juvenil. Permanecer vinculado à Fundação, nas atuais circunstâncias, significaria conivência com um processo de deterioração institucional que repudiamos.

Assim, comunicamos publicamente nossa saída coletiva da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, reafirmando nosso compromisso com a literatura infantil e juvenil brasileira, com seus leitores, autores, ilustradores, editores, pesquisadores e mediadores — compromisso este que não pode ser sustentado em uma estrutura que, em nossa avaliação, apresenta sinais de abandono institucional, falta de transparência e fragilidade de gestão.

Indicamos que a decisão de nossa saída do prêmio já foi informada à Direção da FNLIJ e buscamos agora torná-la pública, em vista de nossa responsabilidade ética frente aos Prêmios da FNLIJ, bem como da prestação de contas à sociedade e da defesa de um campo cultural que tem na FNLIJ uma história que não pode ser apagada nem descaracterizada.

Esta manifestação pública expressa a posição coletiva dos votantes do prêmio, tomada após reflexão conjunta sobre as condições atuais de funcionamento da Fundação.

Atenciosamente,
Votantes do Prêmio FNLIJ"

Tags: FNLIJ
[16/03/2026 10:32:24]
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