A pergunta é o ouro: por que os livros são a tecnologia essencial na era da IA?
PublishNews, Thereza de Castro, 12/03/2026
A inteligência artificial​ automatiza tarefas, mas não critérios, e é justamente aqui que o livro se torna insubstituível: para dominar a máquina é imperativo voltar às páginas

Livros são essenciais na era da IA | © Freepik
Livros são essenciais na era da IA | © Freepik
Ao contrário do que a corrida tecnológica sugere, a ferramenta mais sofisticada para navegar o mercado de trabalho neste e nos anos vindouros ainda é o livro.

Embora essa frase possa soar, à primeira vista, como uma defesa ingênua e apaixonada do mercado editorial, ela perde a aura de nostalgia e torna-se uma constatação econômica ao contemplarmos o relatório Future of jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, que aponta que a habilidade número um procurada pelos empregadores não é saber programar, mas ter pensamento crítico e analítico. Isso se alinha perfeitamente às informações do SkyHive e Cornerstone que já mostravam que a busca por soft skills dobrou em relação às habilidades técnicas. E a razão é simples, a inteligência artificial automatiza tarefas, mas não critérios. E é justamente aqui que o livro se torna insubstituível, pois a capacidade de julgar e conectar contextos vem da leitura profunda.

Essa lacuna de formação humana explica um cenário curioso apontado pelo estudo The State of IA 2025, da McKinsey, que diz que, embora nove em cada dez empresas no mundo já utilizem IA, 80% delas ainda não conseguiram transformar essa tecnologia em lucro ou avanço real. O problema não é o algoritmo, mas o operador. Faltam pessoas com estofo cultural para aplicar a tecnologia de forma inteligente. Durante séculos, fomos treinados para acumular respostas, crendo que ter a informação era ter o poder. Mas a ascensão vertiginosa da IA transformou o conhecimento enciclopédico em uma commodity barata, acessível em milissegundos, invertendo o jogo. Em um mundo onde as respostas são abundantes, a escassez migrou para a capacidade de fazer a pergunta certa e checar a veracidade do retorno.

Não se trata de negar a tecnologia, precisamos nos capacitar no uso de IA ou ficaremos para trás, mas, para dominar a máquina, é imperativo voltar às páginas. O livro, ao contrário das leituras dinâmicas de tela, exige paciência cognitiva, desenvolvendo atenção sustentada e pensamento sistêmico, extremamente necessários para não sermos enganados pela tecnologia. Isso é vital porque, apesar de a IA ser poderosa, ela opera com base na estatística e não na verdade. O fenômeno da “alucinação”, quando a IA inventa dados com total confiança, é um risco real. Um estudo de Stanford de 2024 mostrou que, no setor jurídico, por exemplo, ferramentas de IA inventaram ou erraram respostas em uma taxa que variava de 17% a 60%, dependendo da complexidade da matéria.

Basicamente, sem capacidade crítica para questionar e verificar respostas, usando a IA como ferramenta e assistente de pensamento, o humano torna-se um editor cego, incapaz de auditar o que é entregue pela máquina. Ao ler e debater profundamente ficções e não ficções, acumulamos senso crítico, empatia, considerações éticas e sociais e, principalmente, capacidade de questionamento sem aceitação passiva. Portanto, para o mercado editorial, a mensagem é clara: a atualização é fundamental e precisamos conhecer e dominar o que já se faz presente. A Inteligência Artificial é uma presença que não irá se diluir, mas o livro não é uma relíquia do passado; ele é uma arma afiada e essencial, um gabarito mental indispensável para que o ser humano continue no comando na era de IA.


*Thereza Castro é advogada com foco em direitos autorais e estrategista de inovação para o mercado literário. Formada em Direito pela FMU, pós-graduada pela PUC/SP, atua como advogada há dez anos, e há seis com foco em direitos autorais. Estudou liderança em inovação pela Universidade Hebraica de Jerusalém, reconhecida como um dos maiores polos tecnológicos do mundo. Atualmente, lidera o marketing e comunicação da Citadel Grupo Editorial e integra a Comissão de ESG da Câmara Brasileira do Livro.

[12/03/2026 11:54:04]
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