
Inspirada no poema homônimo de Raul Bopp (1898–1984), escrito em 1927 e publicado em 1931, a exposição coletiva Cobra Norato será inaugurada no sábado, 28 de março, das 15h às 18h, na Galeria Zielinsky (Travessa Dona Paula, 33 — São Paulo / SP). Com curadoria de Adriano Casanova, a a mostra investiga a permanência e a transformação do imaginário modernista brasileiro por meio das criações de nove artistas visuais. A exposição ficará em cartaz até o dia 30 de maio e a entrada é gratuita.
Cobra Norato é tida como obra-prima da poética antropofágica e de Bopp — diplomata gaúcho, poeta modernista e um dos fundadores do movimento Antropofágico junto a Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. O poema narra a travessia de um homem que veste a pele de uma serpente para adentrar a floresta amazônica. Inspirado no mito amazônico do Honorato, Bopp articula encantamento, metamorfose e pertencimento, propondo não apenas uma jornada geográfica, mas uma mudança radical de perspectiva: o personagem abandona a condição humana estável para existir dentro da floresta, incorporando seus ritmos, criaturas e forças.
Mais do que ilustrar o livro ou tematizar a Amazônia, a exposição parte da força narrativa e imagética de Cobra Norato para pensar outras formas de perceber o mundo. As obras reunidas exploram situações em que o humano deixa de ser medida única do espaço, propondo deslocamentos de escala, corpo e linguagem.

Lia Chaia intervém no espaço com uma derivação site-specific (termo usado nas artes para designar uma obra, instalação, intervenção ou projeto concebido especificamente para ocupar um determinado lugar, e apenas ele) de sua série Vértebra por vértebra, envolvendo a galeria com desenhos ósseos que evocam serpentes. Em Rompimento (1969), Vera Chaves Barcellos apresenta uma forma geométrica atravessada por uma linha orgânica de movimento sinuoso. E Renata Padovan apresenta, na série Para saber onde está pisando, um tapete bordado por artesãs pernambucanas com a imagem de satélite da nuvem de fumaça que cobriu milhões de quilômetros quadrados da América do Sul em setembro de 2022, embalando cartografia, território e memória ambiental.
No poema de Bopp, atravessar a paisagem implica também transformar o próprio corpo. Essa ideia atravessa a exposição: humano, animal e ambiente aparecem como dimensões interligadas, dissolvendo fronteiras entre natureza e cultura e sugerindo formas de coexistência.
A natureza, aqui, não surge como cenário, mas como processo. As obras operam por repetição, desgaste, crescimento e transformação material, aproximando-se da lógica viva presente na escrita de Bopp. No texto crítico que acompanha a exposição, Adriano Casanova diz que “a atualidade de Raul Bopp decorre desse deslocamento. Cobra Norato antecipa uma questão contemporânea: a crise da separação entre homem e natureza”.
“A importância do livro para a história da arte brasileira passa por essa inflexão. Ao deslocar a natureza de motivo representado para experiência perceptiva, Bopp contribuiu para uma imaginação moderna em que o ambiente deixa de ser fundo pictórico e passa a ser condição de trabalho. A arte já não representa a natureza: passa a operar com ela", completa o curador da exposição, no material de dvulgação.
Serviço
Cobra Norato
Abertura: 28 de março, sábado, das 15h às 18h
Visitação: 28 de março a 30 de maio de 2026
Entrada gratuita
Endereço : Galeria Zielinksy ()
Horário: Ter. a sex., das 11h às 19h | Sáb., das 11h às 17h


