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Revista O Odisseu completa cinco anos cobrindo uma literatura mais plural
PublishNews, Monica Ramalho, 13/02/2026
Bimensal, a revista online e independente é editada por três jovens com preferências literárias bem distintas e conta com cerca de 40 colaboradores pelo país

Ewerton Ulisses © Davi Boaventura
Ewerton Ulisses © Davi Boaventura

Você sabia que existe uma revista online e independente de literatura na Bahia? Mais precisamente, em Salvador, onde nasceram Ewerton Ulysses Cardoso e Carol Antunes, dois editores. O terceiro se chama Kaio Moreira Veloso, e tem as raízes fincadas em Minas Gerais. Com peridiocidade bimensal, a revista O Odisseu é feita pelos jovens pesquisadores, de olho nos movimentos livreiros no Brasil e no mundo. Ewerton é atraído para a literatura negra, Carol prefere a poesia e a escrita de mulheres e Kaio tem apreço pela tradução e pelos estudos dos clássicos da literatura universal.

Há cinco anos, o trio rege uma orquestra de mais de 40 voluntários espalhados por cidades como Porto Alegre, Manaus, Natal, Maceió, Rio de Janeiro e São Paulo. Cada editor fica à frente de uma edição, em revezamento. Entre os colaboradores estão artistas, poetas, cineastas, revisores, curadores e professores. Juntos, fazem uma cobertura jornalística da cena literária que desloca o foco dos nomes consagrados.

“Por eu ser nordestino, a revista surgiu diretamente como uma contraproposta à cobertura de livros hegemônica. Queria um espaço de crítica comprometida com a literatura feita em Salvador e no Nordeste do país”, sinaliza Ewerton. Na prática, eles olham para autores de todos os tamanhos e costumam fotografá-los e dar espaço a quem merece destaque, até iniciantes.

Alguns desses autores nunca haviam saído na imprensa antes da Odisseu, com uma análise detalhada sobre a sua obra e retrato profissional, por exemplo. “São escolhas que fazemos e que muitas vezes exigem de nós coragem. É realmente um investimento em todos os sentidos, mas fazemos porque acreditamos”, defende o editor, num tom romântico.

Prestes a mudar para Niterói, onde vai fazer mestrado em Literatura Africana na Universidade Federal Fluminense (UFF) em 2026 e 2027, Ewerton aposta na pluralidade de vozes. “Nós, enquanto equipe, não pensamos igual. E eu sempre quis que fosse assim. Acredito no atrito e na discordância como fatores para a produção de sentido”, pondera.

Sentido que norteou uma edição muito especial, em agosto de 2024, um ponto de virada na história da revista. O tema era decolonialidade e o número foi elaborado por Pedro Henrique Rodrigues, um dos editores da revista no passado. Para quem ficou curioso, dá para ler a edição todinha aqui.

“Ganhamos um ensaio artístico assinado por Rynard, um artista visual incrível que também fez algumas artes em colagem para aquela edição. Nela, entrevistamos a Denise Carrascosa, professora da UFBA, e fizemos fotos do também professor e escritor Jorge Augusto. O capricho naquela edição, muito em mérito do desejo de Pedro em fazer algo impecável, fez com que mais pessoas nos olhassem com respeito", rebobina Ewerton.

As artes de capa são produzidas pelo jovem estudante Maicon Aquino, mais um baiano, sempre com muita dedicação e sem uso de inteligência artificial. Já Cristiane Alvarenga fica responsável pelas artes que circulam no miolo da revista — inteiramente digital e com acesso gratuito aos conteúdos desses cinco anos. “A gratuidade torna o trabalho mais desafiador, mas também é o que impulsiona a leitura. Recebemos muitos feedbacks", comemora. Cerca de dois mil leitores são assinantes da revista.

Ao ser perguntado se existe, hoje, espaço real para uma crítica literária menos complacente no Brasil ou ela ainda caminha em campo, digamos, “minado” de afetos, Ewerton respondeu: “Honestamente, fico um pouco entediado às vezes. Há um claro jogo de amizade, assim como também há sempre uma preferência pré-definida. Parece que existe apenas um pequeno grupo de autores que conseguem realmente aparecer nos jornais, revistas e outros canais de crítica”.

Ewerton volta ao supracitado Jorge Augusto para arredondar o pensamento. Jorge abocanhou os prêmios Jabuti Acadêmico e Biblioteca Nacional com o livro Modernismo negro: a literatura de Lima Barreto (Segundo Selo, 2024) e não foi devidamente lido e ouvido pela imprensa tradicional. “Isso mostra que o radar da crítica que eu chamo de hegemônica simplesmente não capta outros autores que não estejam nos grandes centros. Ou porque não conhecem ou porque não há interesse em conhecer". E aqui mora o ouro d’O Odisseu.

Eles não aceitam pagamento para elogiar ninguém, e o que fazem parece gritar "Leiam livros produzidos fora do Sudeste!”. Ewerton chama a atenção para o fato de que muitos autores nordestinos só são chamados para os eventos de ponta do setor quando deslocam as moradias para o eixo Rio-São Paulo.

“Recomendo muito o trabalho de autores nortistas que não estão nas grandes editoras, como a da minha amiga Myriam Scotti. Recomendo o trabalho feito em Salvador por editoras menores, como paraLeLo13S e Segundo Selo. E recomendo poetas. Lucas Litrento, Maria Dolores Rodriguez, Nilson, Tiago D. Oliveira e Marcio Junqueira ainda residem no Nordeste e são, para mim, os que têm feito trabalhos mais impecáveis", lista, sonhando com um mundo que valoriza talentos.

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[13/02/2026 09:52:33]
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