Publicidade
O autor como arquiteto: a era da 'escrita à distância'
PublishNews, Fernando Tavares, 08/01/2026
Com base no artigo do italiano Luciano Floridi, Fernando Tavares escreve sobre o processo de mudança na 'carpintaria' da escrita

Uso de IA já é realidade entre autores e editores brasileiros | © Freepik
Uso de IA já é realidade entre autores e editores brasileiros | © Freepik

Iniciei o ano com uma leitura densa e provocante, daquelas que em tempos de scrolling as pessoas não fazem mais, que porém são necessárias para nos mantermos lúcidos, críticos e abertos às mudanças: o artigo se chama Distant Writing: Literary Production in the Age of Artificial Intelligence, do filósofo Luciano Floridi.

Muitos de nós já usamos a inteligência artificial para estruturar ideias, redigir parágrafos e escrever textos. Isso já é uma realidade entre autores e editores brasileiros. A grande contribuição deste artigo não é apresentar uma tecnologia nova, mas sim dar nome a esta forma de escrita, estruturá-la e pensar mais profundamente sobre o impacto que pode ter no nosso mercado.

Por que isso é importante? Porque só conseguimos refletir seriamente sobre um fenômeno, e profissionalizá-lo, quando temos os conceitos certos para descrevê-lo. Floridi batiza essa escrita auxiliada por IA de “escrita à distância” (Distant Writing) fazendo um paralelo com o conceito de “leitura à distância” de Franco Moretti, crítico e teórico literário italiano.

Aqui está o link para o artigo original: SSRN: Distant Writing by Luciano Floridi.

O conceito: do artesão ao arquiteto

Historicamente, sempre praticamos a “close writing” (escrita próxima): o autor é o artesão que esculpe, manualmente, palavra por palavra. Existe uma proximidade entre quem idealiza o texto (o arquiteto) e quem executa ele (os pedreiros), ambas as tarefas são executadas pelo próprio autor.

A escrita à distância modifica essa lógica. O autor deixa de ser apenas o executor textual e assume o papel de designer narrativo ou meta-autor. Existe uma separação entre quem idealiza o texto e quem executa ele.

No seu texto, Floridi usa uma analogia arquitetônica: Bernini projetou a majestosa Colunata da Praça de São Pedro. A visão, o estilo, a curvatura e o impacto são inteiramente dele. Mas foi ele quem carregou as pedras e ergueu fisicamente as 284 colunas? Não. Uma equipe de construtores executou o trabalho sob sua supervisão rigorosa. No entanto, a obra é, inquestionavelmente, de Bernini.

Na era da IA, o autor projeta a “planta” (o enredo, o tom, as restrições) e o LLM atua como a equipe de construção.

Na prática: como “escrever à distância” com autenticidade

Muitos críticos dizem que usar IA é “copiar e colar”. Floridi desmonta essa ideia ao propor uma metodologia rigorosa. Para que a obra tenha qualidade e a autoria seja legítima, o processo deve seguir um fluxo de refinamento progressivo.

Não é um comando mágico. É um “diálogo socrático” com a máquina. Floridi estrutura esse processo em sete etapas que transformam o “prompting” em uma disciplina editorial:

  1. Concepção e desenvolvimento: o humano define a ideia. A IA ainda não entra aqui como autora, apenas talvez como assistente de brainstorming.
  2. Formulação de requisitos: onde o autor-arquiteto define as regras: estilo, temas, personagens e restrições.
  3. Engenharia de prompt: a tradução desses requisitos para uma linguagem que a máquina entenda.
  4. WrAIting (escrita via IA): o momento em que o modelo gera o texto base.
  5. Refinamento progressivo: esta é a chave. O autor revisa, identifica falhas e refaz os prompts. É um ciclo iterativo de melhoria.
  6. Validação e verificação: garantir a coerência interna e a plausibilidade da narrativa.
  7. Curadoria e montagem: o autor seleciona, organiza e dá o polimento final na obra.

A responsabilidade intelectual permanece, do início ao fim, com o humano. Se o prédio cair (ou o texto for ruim), a culpa é do arquiteto, não dos pedreiros.

O desafio da “voz" e a solução dos SLMs (Small Language Models)

Um ponto crucial levantado no artigo é que IAs não têm “voz” (que depende de consciência e intenção), mas sim um Dataprint (uma impressão digital de dados).

O dataprint são aqueles cacoetes na escrita que cada modelo de linguagem carrega consigo e que são frutos de vários fatores, como, por exemplo, o treinamento, o tamanho do modelo e a tecnologia usada. A internet está repleta de textos que contêm o dataprint do ChatGPT e é até simples encontrar estes sinais nos textos escritos.

A título de exemplo, o ChatGPT tem um dataprint lírico, expansivo e introspectivo. Já o Claude tende a ser mais direto, econômico e pragmático. Cada modelo de IA possui um dataprint diferente.

Isso gera um medo legítimo: a homogeneização da literatura. Se todos usarmos os mesmos “pedreiros”, todos os prédios serão iguais?

Aqui entra uma reflexão técnica minha, que vai além do artigo de Floridi, mas que acredito ser vital para nós: o futuro da autoria digital passa pelos SLMs (Small Language Models) e a execução local.

Em vez de usar um modelo gigante e genérico na nuvem (como o ChatGPT), autores e editoras poderão rodar modelos menores (SLMs) em seus próprios computadores, totalmente offline. Isso traz duas vantagens:

  1. Privacidade e segurança: Seu manuscrito não sai da sua máquina.
  2. Fine-Tuning (ajuste fino): Você pode treinar esse pequeno modelo com seus livros anteriores, seus e-mails, seus artigos e fazer com que eles escrevam com o seu estilo.

Ao fazer isso, você ensina o “pedreiro digital“ a desenhar com o seu traço. O modelo deixa de ter o ”gosto de máquina" padrão e passa a executar o projeto respeitando a sua voz autoral específica. É a personalização máxima da escrita à distância.

Este mesmo processo pode ser feito também com grandes modelos de linguagem, desde que a escolha deles passe por uma reflexão consciente do tipo: “vou usar o Gemini porque ele escreve de forma mais semelhante a como eu quero que os meus textos ecoem.”

Uma nova forma de narrar?

Estamos diante de uma transformação, mas a escrita à distância (ou escrita auxiliada por IA) não veio para substituir a escrita tradicional e a intimidade manual com a palavra. Elas irão coexistir.

No entanto, novos modelos de negócio surgirão. Floridi cita a “literatura de multiverso” (várias versões da mesma história) e a publicação hiperpersonalizada. O papel do editor se aproximará do de um produtor de cinema: alguém que gerencia talentos e tecnologias para entregar uma visão.

O essencial é lembrar: a ética da autoria não muda. Seja segurando uma caneta ou digitando um prompt, a responsabilidade pelo que é dito é inteiramente humana. Somos nós que assinamos o projeto.

O que o profissional do livro vai precisar aprender?

Se a premissa de Floridi estiver correta e o autor estiver se tornando um arquiteto, o editor e o profissional do livro precisam evoluir para se tornarem engenheiros de narrativa. Isso exige uma atualização urgente do nosso “sistema operacional” profissional.

Baseado na leitura do artigo, alguns pontos fundamentais que precisamos cultivar:

  1. Literacia técnica: perder o medo da “caixa preta”. Não basta mais apenas “saber escrever bem”. O profissional precisa compreender as nuances técnicas dos diferentes LLMs. Isso significa abrir o capô do motor.
  2. Entender o Dataprint: é preciso saber tecnicamente qual modelo usar para qual finalidade. Você precisa saber que o Claude tende a ser mais direto e econômico , enquanto a série GPT pode ser mais lírica e expansiva. Escolher o modelo errado é como escolher a lente errada para uma fotografia.
  3. Domínio dos parâmetros: o autor-arquiteto precisa entender como as limitações e repetições de um modelo funcionam e como o fine-tuning (ajuste fino) pode alterar o estilo de saída para nichos específicos. Perder o medo de entender termos como “janela de contexto” ou “temperatura” fará parte da nossa rotina.
  4. Do workshop ao “estúdio de design”. A forma como ensinamos e editamos livros pode mudar. O modelo tradicional de oficina literária, focado na crítica do texto final, deve evoluir para o que Floridi chama de abordagem de “estúdio de design”. Nesse novo ambiente, não criticamos apenas a frase, mas a estratégia de prompting que gerou aquela frase. A avaliação do trabalho editorial passa a considerar não só o produto final, mas a qualidade do design e a eficácia das instruções dadas à máquina .
  5. A curadoria crítica (paradoxalmente, precisamos ler mais). Aqui está a ironia: para fazer uma boa escrita à distância, você precisa ser um mestre na Leitura Próxima (Close Reading). Por quê? Porque para dar instruções precisas à IA, você precisa ter um vocabulário crítico vasto. Você não pode pedir à máquina para emular um estilo ou estrutura se você mesmo não souber nomear e explicar explicitamente esses padrões. A capacidade crítica de distinguir o que é uma alucinação da máquina e o que é uma ideia brilhante será o grande diferencial humano. A curadoria torna-se a nossa maior ferramenta de valor.

Conclusão

Essa mudança pode assustar e corremos o risco de, por medo, ignorar as mudanças que de fato estão acontecendo ao nosso redor.

Ao delegar a execução textual (a "carpintaria”) para a máquina, ficamos livres para focar no que realmente importa: a concepção, a estrutura e a alma da história.

Não estamos matando o autor; estamos expandindo suas ferramentas. A Escrita à Distância não substitui a caneta, mas adiciona um computador quântico à nossa mesa de trabalho. Cabe a nós decidir se seremos apenas operadores de botão ou os arquitetos de novos mundos literários.

O próximo passo para você: Nesta semana, faça um teste técnico consciente. Pegue o mesmo parágrafo de uma ideia sua e peça para três IAs diferentes (ex: ChatGPT, Claude e Gemini) reescreverem com o mesmo prompt. Compare os resultados lado a lado. Tente identificar o dataprint de cada um. Esse exercício simples vai começar a treinar o seu olhar de “engenheiro de narrativa” para as nuances de cada ferramenta.

Recomendo a leitura completa do artigo do Floridi e espero que isso suscite reflexões e aprofundamentos.

Sugestões de leitura

FLORIDI, Luciano. Distant Writing: Literary Production in the Age of Artificial Intelligence. Centre for Digital Ethics (CEDE) Research Paper, abr. 2025. Disponível em: https://ssrn.com/abstract=5232088. Acesso em: jan. 2026.

PIERI, Leandro Henrique S. C. de. Franco Moretti e a 'distant reading': um olhar sobre o método. Revista Garrafa (UFRJ). Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/garrafa/article/view/30861.

MØLLER, Bo Vyhner. AI-generated Literature, Distant Writing and the Reader: Reflections on Floridi and Calvino. Philosophy & Technology 38: 168. https://doi.org/10.1007/s13347-025-01008-x.

RODRIGUES, Tiegue Vieira. Agência e Integridade Epistêmica na Escrita Distante. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/80012/42436.

* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

[08/01/2026 09:31:28]
Leia também
Fernando Tavares destrincha tendências de inteligência artificial e separa possíveis aprendizados para o mercado editorial brasileiro
Reflexão sobre o assunto parece estar em marcha lenta no mercado editorial, especialmente no Brasil; veja cinco passos para as editoras mergulharem de cabeça (e com estratégia) na era da inteligência artificial
Em novo artigo, Fernando Tavares convida o leitor a se aprofundar no tema da inteligência artificial e explorar suas múltiplas funcionalidades
Em novo artigo, Fernando Tavares dá dicas práticas para as editoras que estão implementando/usando a IA ou que querem experimentar o uso dela nos mais variados serviços de produção editorial
Fernando Tavares discorre sobre a importância de incluir a IA nos processos editoriais e analisa as possibilidades teóricas e práticas do tema
Outras colunas
Com base no artigo do italiano Luciano Floridi, Fernando Tavares escreve sobre o processo de mudança na 'carpintaria' da escrita
Espaço publieditorial reúne informações sobre livros lançados de forma independente ou autopublicados
Livro de Luciane Mustafá propõe um gesto simples e profundamente transformador
Contos abordam temas universais do universo feminino, como autoestima, relações afetivas, identidade, limites, espiritualidade, culpa, expectativas sociais e autoconhecimento
Narrativa de Luciane Mustafá é marcada por introspecção, memória afetiva e reflexões que dialogam com espiritualidade, psicologia e autoconhecimento