
Iniciei o ano com uma leitura densa e provocante, daquelas que em tempos de scrolling as pessoas não fazem mais, que porém são necessárias para nos mantermos lúcidos, críticos e abertos às mudanças: o artigo se chama Distant Writing: Literary Production in the Age of Artificial Intelligence, do filósofo Luciano Floridi.
Muitos de nós já usamos a inteligência artificial para estruturar ideias, redigir parágrafos e escrever textos. Isso já é uma realidade entre autores e editores brasileiros. A grande contribuição deste artigo não é apresentar uma tecnologia nova, mas sim dar nome a esta forma de escrita, estruturá-la e pensar mais profundamente sobre o impacto que pode ter no nosso mercado.
Por que isso é importante? Porque só conseguimos refletir seriamente sobre um fenômeno, e profissionalizá-lo, quando temos os conceitos certos para descrevê-lo. Floridi batiza essa escrita auxiliada por IA de “escrita à distância” (Distant Writing) fazendo um paralelo com o conceito de “leitura à distância” de Franco Moretti, crítico e teórico literário italiano.
Aqui está o link para o artigo original: SSRN: Distant Writing by Luciano Floridi.
Historicamente, sempre praticamos a “close writing” (escrita próxima): o autor é o artesão que esculpe, manualmente, palavra por palavra. Existe uma proximidade entre quem idealiza o texto (o arquiteto) e quem executa ele (os pedreiros), ambas as tarefas são executadas pelo próprio autor.
A escrita à distância modifica essa lógica. O autor deixa de ser apenas o executor textual e assume o papel de designer narrativo ou meta-autor. Existe uma separação entre quem idealiza o texto e quem executa ele.
No seu texto, Floridi usa uma analogia arquitetônica: Bernini projetou a majestosa Colunata da Praça de São Pedro. A visão, o estilo, a curvatura e o impacto são inteiramente dele. Mas foi ele quem carregou as pedras e ergueu fisicamente as 284 colunas? Não. Uma equipe de construtores executou o trabalho sob sua supervisão rigorosa. No entanto, a obra é, inquestionavelmente, de Bernini.
Na era da IA, o autor projeta a “planta” (o enredo, o tom, as restrições) e o LLM atua como a equipe de construção.
Muitos críticos dizem que usar IA é “copiar e colar”. Floridi desmonta essa ideia ao propor uma metodologia rigorosa. Para que a obra tenha qualidade e a autoria seja legítima, o processo deve seguir um fluxo de refinamento progressivo.
Não é um comando mágico. É um “diálogo socrático” com a máquina. Floridi estrutura esse processo em sete etapas que transformam o “prompting” em uma disciplina editorial:
A responsabilidade intelectual permanece, do início ao fim, com o humano. Se o prédio cair (ou o texto for ruim), a culpa é do arquiteto, não dos pedreiros.
Um ponto crucial levantado no artigo é que IAs não têm “voz” (que depende de consciência e intenção), mas sim um Dataprint (uma impressão digital de dados).
O dataprint são aqueles cacoetes na escrita que cada modelo de linguagem carrega consigo e que são frutos de vários fatores, como, por exemplo, o treinamento, o tamanho do modelo e a tecnologia usada. A internet está repleta de textos que contêm o dataprint do ChatGPT e é até simples encontrar estes sinais nos textos escritos.
A título de exemplo, o ChatGPT tem um dataprint lírico, expansivo e introspectivo. Já o Claude tende a ser mais direto, econômico e pragmático. Cada modelo de IA possui um dataprint diferente.
Isso gera um medo legítimo: a homogeneização da literatura. Se todos usarmos os mesmos “pedreiros”, todos os prédios serão iguais?
Aqui entra uma reflexão técnica minha, que vai além do artigo de Floridi, mas que acredito ser vital para nós: o futuro da autoria digital passa pelos SLMs (Small Language Models) e a execução local.
Em vez de usar um modelo gigante e genérico na nuvem (como o ChatGPT), autores e editoras poderão rodar modelos menores (SLMs) em seus próprios computadores, totalmente offline. Isso traz duas vantagens:
Ao fazer isso, você ensina o “pedreiro digital“ a desenhar com o seu traço. O modelo deixa de ter o ”gosto de máquina" padrão e passa a executar o projeto respeitando a sua voz autoral específica. É a personalização máxima da escrita à distância.
Este mesmo processo pode ser feito também com grandes modelos de linguagem, desde que a escolha deles passe por uma reflexão consciente do tipo: “vou usar o Gemini porque ele escreve de forma mais semelhante a como eu quero que os meus textos ecoem.”
Estamos diante de uma transformação, mas a escrita à distância (ou escrita auxiliada por IA) não veio para substituir a escrita tradicional e a intimidade manual com a palavra. Elas irão coexistir.
No entanto, novos modelos de negócio surgirão. Floridi cita a “literatura de multiverso” (várias versões da mesma história) e a publicação hiperpersonalizada. O papel do editor se aproximará do de um produtor de cinema: alguém que gerencia talentos e tecnologias para entregar uma visão.
O essencial é lembrar: a ética da autoria não muda. Seja segurando uma caneta ou digitando um prompt, a responsabilidade pelo que é dito é inteiramente humana. Somos nós que assinamos o projeto.
Se a premissa de Floridi estiver correta e o autor estiver se tornando um arquiteto, o editor e o profissional do livro precisam evoluir para se tornarem engenheiros de narrativa. Isso exige uma atualização urgente do nosso “sistema operacional” profissional.
Baseado na leitura do artigo, alguns pontos fundamentais que precisamos cultivar:
Essa mudança pode assustar e corremos o risco de, por medo, ignorar as mudanças que de fato estão acontecendo ao nosso redor.
Ao delegar a execução textual (a "carpintaria”) para a máquina, ficamos livres para focar no que realmente importa: a concepção, a estrutura e a alma da história.
Não estamos matando o autor; estamos expandindo suas ferramentas. A Escrita à Distância não substitui a caneta, mas adiciona um computador quântico à nossa mesa de trabalho. Cabe a nós decidir se seremos apenas operadores de botão ou os arquitetos de novos mundos literários.
O próximo passo para você: Nesta semana, faça um teste técnico consciente. Pegue o mesmo parágrafo de uma ideia sua e peça para três IAs diferentes (ex: ChatGPT, Claude e Gemini) reescreverem com o mesmo prompt. Compare os resultados lado a lado. Tente identificar o dataprint de cada um. Esse exercício simples vai começar a treinar o seu olhar de “engenheiro de narrativa” para as nuances de cada ferramenta.
Recomendo a leitura completa do artigo do Floridi e espero que isso suscite reflexões e aprofundamentos.
FLORIDI, Luciano. Distant Writing: Literary Production in the Age of Artificial Intelligence. Centre for Digital Ethics (CEDE) Research Paper, abr. 2025. Disponível em: https://ssrn.com/abstract=5232088. Acesso em: jan. 2026.
PIERI, Leandro Henrique S. C. de. Franco Moretti e a 'distant reading': um olhar sobre o método. Revista Garrafa (UFRJ). Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/garrafa/article/view/30861.
MØLLER, Bo Vyhner. AI-generated Literature, Distant Writing and the Reader: Reflections on Floridi and Calvino. Philosophy & Technology 38: 168. https://doi.org/10.1007/s13347-025-01008-x.
RODRIGUES, Tiegue Vieira. Agência e Integridade Epistêmica na Escrita Distante. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/dominiosdelinguagem/article/view/80012/42436.
* José Fernando Tavares é especialista em Publicações Digitais e produtos digitais com mais de 14 anos de experiência no mercado editorial, especializado em tecnologia para negócios e Inteligência Artificial para produtividade. Em 2014, fundou a Booknando, empresa especializada em publicações digitais e livros acessíveis. No ano passado, criou a Volyo Audiobooks, focada na produção de audiolivros com uso de Inteligência Artificial. Com formação humanística, busca utilizar a tecnologia para melhorar o mundo. Tem paixão por vinhos e pelo aprendizado diário.
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