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Futuros Compostos | Coral Michelin: a construção de futuros pluriversais
PublishNews, Lu Magalhães, 17/11/2025
Autora fala sobre a trajetória que a levou aos estudos de futuros, explica o conceito de design ecossistêmico e reflete sobre o papel dos livros, da literatura e da linguagem na construção de mundos mais vivos e conscientes

Com a singular combinação de pensamento crítico, ativismo poético e construção de futuros pluriversais, Coral Michelin abre caminhos para um design que regenera. Autora do livro Design ecossistêmico: um caminho eco-decolonial para a regeneração (Bambual Editora), ela propõe uma mudança de paradigma: projetar não como exercício de controle, mas como gesto de cuidado, cura e reconexão com a vida. Em sua pesquisa, Coral percorre diferentes modos de pensar o tempo. No Design Especulativo, explora futuros que não precisam ser desejáveis — e, às vezes, nem possíveis. São futuros provocativos, ficcionais, usados como ferramenta crítica para questionar as narrativas que orientam o presente e revelar o que elas dizem sobre nós. Já no Design Regenerativo — especialmente no Design Ecossistêmico —, a investigação se desloca: a preocupação não é apenas imaginar o que poderia vir a ser, mas reconstruir a relação entre humanos e não humanos para que um futuro regenerado possa emergir. Toda a sua trajetória se mantém em diálogo com o tempo por vir.

Ao articular teoria e poesia, pensamento e afeto, Coral enxerga o design como campo de imaginação coletiva — capaz de criar futuros que não pertencem apenas aos humanos, mas aos múltiplos seres e ecossistemas com os quais coexistimos. Nesta entrevista para Futuros Compostos, a autora fala sobre a trajetória que a levou aos estudos de futuros, explica o conceito de design ecossistêmico e reflete sobre o papel dos livros, da literatura e da linguagem na construção de mundos mais vivos e conscientes.

Lu Magalhães — Como os estudos e construção de futuros entrou em sua trajetória pessoal e profissional?

Coral Michelin — Os futuros aparecem na minha trajetória, mais fortemente, a partir do mestrado, quando eu estudava Design Estratégico na Unisinos. Essa temática, inclusive, tem uma relação muito próxima com a construção de visões de futuro, porque é uma abordagem do design voltada a estratégias organizacionais. E toda estratégia, de alguma forma, está olhando para um futuro desejável. A gente cria uma estratégia porque quer chegar a determinado lugar — uma situação, um contexto, uma condição que se localiza em um tempo à frente. Então, o Design Estratégico se conecta aos futuros justamente por essa natureza prospectiva: ele propõe caminhos para o que ainda não existe, para aquilo que se quer alcançar. A partir dessa experiência, comecei também a estudar outra abordagem, chamada Design Especulativo — e aí, sim, o campo se volta completamente à discussão e à crítica de visões de futuro.

Os futuros que o Design Especulativo explora são diferentes dos futuros estratégicos: eles não precisam ser desejáveis, nem mesmo possíveis. Podem ser futuros impossíveis, provocativos, ficcionais. O que interessa é o diálogo crítico em torno dessas visões — questionar os futuros que projetamos e o que eles dizem sobre nós. Mais recentemente, essa trajetória evoluiu para o Design Regenerativo ou Design Ecossistêmico. A perspectiva da regeneração também se localiza no futuro, porque ela aponta para a construção de um futuro regenerado. De algum modo, sigo dialogando com o futuro em todas essas camadas: da estratégia à especulação, e agora à
regeneração.

Conte um pouco sobre o conceito de Design Ecossistêmico?

O Design Ecossistêmico é uma abordagem que se insere dentro do guarda-chuva do Design Regenerativo. É uma proposta que desenvolvi durante o meu doutorado e que resultou no livro Design ecossistêmico: um caminho eco-decolonial para a regeneração. Trata-se de uma abordagem regenerativa porque busca a regeneração do ecossistema — entendido aqui como o conjunto natural e artificial em que humanos e não humanos coexistem. Mas para que essa regeneração aconteça, o Design Ecossistêmico propõe algo anterior: que o sujeito envolvido na ação projetual — o sujeito projetista — também regenere a sua própria visão de mundo. Ou seja, que ele projete a partir de uma mentalidade e de uma subjetividade que já passaram por um processo de cura.

É uma regeneração interior, de paradigma, de sensibilidade. Que esse sujeito consiga reconhecer e reparar feridas coloniais, desequilíbrios de percepção, modos de pensar e agir que, historicamente, romperam a relação de interdependência entre seres e ambientes. Somente quando essa visão de mundo se transforma é que o ato de projetar pode, de fato, contribuir para a regeneração do ecossistema como um todo. A subjetividade regenerada é aquela que compreende que o ser humano é natureza. Eu, como pessoa, sou parte da natureza. Eu não estou fora dela, nem acima dela. Quando o sujeito projetista se percebe como natureza, ele passa a agir de forma diferente: desenvolve uma capacidade mais profunda de regenerar o ecossistema ao seu redor, justamente porque entende que também faz parte dele. Ao se reconhecer nesse pertencimento, ele não apenas deixa de danificar o ambiente, como passa a promover sua vitalidade. Essa mudança de olhar — do “eu sobre” para o “eu com e como” — é o que, no fundo, sustenta o design ecossistêmico.

Você aponta que divide a sua atuação profissional em duas frentes: mercadológica e acadêmica. Em ambas, qual é o papel dos livros — sobretudo com o uso da lente do design?

Eu sou suspeita para falar, porque sou completamente viciada em livros (especialmente os físicos) — e confesso que tenho mais livros do que vida disponível para lê-los. Mas acredito que, independentemente da frente de que a gente está falando — seja na atuação profissional, na vida pessoal ou no campo intelectual —, os livros têm um papel fundamental de provocar o pensamento. Eles nos trazem novas ideias, novos conceitos e expandem as possibilidades da mente, da atuação, da própria visão de mundo.

A leitura também trabalha em um plano mais profundo, o da construção da subjetividade, da psicologia individual. É por meio dos livros que muitas vezes elaboramos quem somos, reconhecemos nuances, amadurecemos percepções. Por isso, considero os livros absolutamente fundamentais. E, ao mesmo tempo, vejo com tristeza a dificuldade que ainda existe no Brasil em torno da leitura — a resistência que o nosso povo enfrenta para se entregar a essa atividade tão importante e enriquecedora. Ler exige tempo, entrega, disponibilidade — e talvez justamente por isso seja tão transformador.

Como escritora, qual papel espera que o seu livro Design ecossistêmico: um caminho eco-decolonial para a regeneração tenha no debate sobre futuros possíveis?

Eu entendo o Design Ecossistêmico como uma semente — uma provocação que nasce de um questionamento crítico sobre o caminho que percorremos até aqui. O livro propõe uma reflexão sobre o que temos feito para construir aquilo que hoje chamamos de presente, mas que, em algum momento, foi uma visão de futuro. A ideia é olhar com atenção para esse percurso: compreender como os futuros que imaginamos no passado moldaram o presente que habitamos agora. E, a partir dessa crítica, abrir espaço para que possamos construir outros futuros — futuros desenhados sob novas perspectivas, com outros referenciais de valor, relação e propósito. Talvez esses novos olhares nos permitam criar futuros melhores do que aqueles que nos trouxeram até aqui — futuros mais conscientes das interdependências, mais atentos à regeneração, mais capazes de sustentar a vida em todas as suas formas.

Muitos livros carregam visões de mundo que moldaram sociedades. Na sua opinião, como a literatura pode ajudar a “descolonizar” o olhar do design e abrir espaço para futuros pluriversais?

Eu acho que o primeiro passo para a gente conseguir fazer um giro decolonial é trazer um olhar crítico — fazer um questionamento daquilo que a gente tem como verdade, como padrão, como métrica. Isso não importa se é dentro do design ou em qualquer outro campo do saber. Precisamos conseguir questionar aquilo que a gente toma como verdade e como paradigma. E questionar significa ir mais a fundo, tentar buscar as origens daquilo que a gente tem como verdade, como padrão. Buscar também o porquê de fazermos as coisas do jeito que fazemos.

Falando especificamente do design, eu acho que essa é uma ação extremamente necessária, porque o design contemporâneo é, sobretudo, um elemento de homogeneização do mundo. Ele é um elemento de colonização do mundo — infelizmente. Então, essa atitude do questionamento, do tentar entender por que eu faço isso dessa forma, por que eu sigo essa estética, por que essa é a minha escolha projetual — seja ela intelectual, prática ou simbólica —, eu entendo que seja realmente fundamental. É a partir desse gesto de consciência que a gente dá o primeiro, e necessário, passo para um giro decolonial. Eu gosto sempre de citar o trabalho do Luiz Antônio Simas como exemplo de alguém que, por meio da escrita, consegue realizar um belíssimo trabalho de descolonização. Ele não é um autor do campo do design, mas mostra, pela literatura, como é possível promover uma descolonização das mentalidades — reeducar o olhar, reconectar pensamento e território, recuperar saberes que foram silenciados.

Você é poeta e ativista. Há uma dimensão lírica no design que propõe?

Com certeza existe uma dimensão lírica no Design Ecossistêmico e no Design Regenerativo. O primeiro propõe que a gente se enxergue como natureza; ele nos convida a tecer novamente a relação entre o nosso eu humano e todos os outros seres não humanos que estão ao redor. Isso implica uma sensibilização do olhar e dos sentidos — um despertar para as múltiplas formas de vida que nos cercam. É um exercício de empatia e de simpatia, que vai do mais micro ao mais macro, da folha ao planeta. Nesse movimento, há um lirismo inevitável, porque regenerar também é reencantar: é recuperar a capacidade de se comover com o que vive.

De que modo a poesia pode abrir fendas para pensarmos futuros mais ricos e inclusivos?

A poesia, nesse contexto, atua como ferramenta de sensibilização. Ela ajuda a afinar o olhar e a escuta, a devolver sutileza à percepção. Por isso, acredito que a dimensão poética pode — e deve — habitar o campo do design ecossistêmico: porque só o olhar sensível é capaz de projetar mundos que façam a vida florescer novamente.

Você costuma falar que o ser humano tem capacidade projetual. Pode explicar esse conceito e a importância dele nesses futuros desejáveis?

Não são apenas os seres humanos que possuem capacidade projetual, diversos outros seres vivos também projetam. Quando a gente fala em projetar, no fundo estamos falando em resolver desafios que se apresentam na vida. O joão-de-barro, por exemplo, precisa construir uma casa segura para abrigar seus filhotes, e faz isso moldando o barro com precisão. Há pássaros que literalmente costuram folhas, formando pequenos cones que servem de ninho. São muitos os exemplos de seres que utilizam os elementos ao redor para criar soluções, cada um à sua maneira, dentro das suas possibilidades e de seus contextos.

Projetar, portanto, é criar caminhos para responder aos desafios que se impõem. E se somos capazes de criar soluções, também somos capazes de desenhar os caminhos que nos levam aos futuros que preferimos construir. Mas é importante abrir um parêntese: quando falamos em “futuros desejáveis”, sempre precisamos perguntar, desejáveis para quem? No contexto do design regenerativo e do design ecossistêmico, esse desejável não se restringe ao ser humano. Ele precisa incluir, na mesma medida, seres humanos e não humanos, reconhecendo a interdependência entre todas as formas de vida. Por isso, os futuros desejáveis que buscamos são futuros pluriversais: futuros que acolhem a diversidade dos seres e também das culturas, das etnias, dos modos de existir. Futuros que ampliam a ideia de bem-estar e de equilíbrio para além da dimensão humana, em direção a um horizonte verdadeiramente compartilhado.

Quais autores ou obras marcaram você na construção do seu pensar o mundo e os futuros possíveis?

Nossa, MUITOS autores. Mas eu acho que tudo começou com Edgar Morin e Fritjof Capra.

Se pensarmos o livro como tecnologia cultural, como ele pode ser um instrumento de regeneração não só individual, mas coletiva?

Acho que livros têm capacidade de inspirar, direcionar, questionar... Assim, eles podem criar conexões entre as pessoas que os leem. E isso, de certa forma, é criar comunidade. Eu sempre digo para meus alunos e para as pessoas interessadas nas temáticas da regeneração: estamos juntos! Busque se conectar com quem tem os mesmos interesses que você, nessa pauta; forme sua rede…

Ainda sobre o livro, você construiu um léxico eco-decolonial. Pode falar um pouco sobre essa construção?

Precisamos partir do entendimento de que palavras têm poder, o que significa que elas realmente podem criar mundos. Nós somos seres na linguagem, somos seres sociais que se relacionam por meio das linguagens. E aqui não falo só das linguagens faladas, mas também das corporais, das visuais, enfim. E isso faz com que, se navegamos pela vida por meio da linguagem, as palavras — os verdadeiros tijolos que constroem nossa linguagem — tenham, efetivamente, muito poder. Então, quando a gente adota um determinado vocabulário, por exemplo, no mercado, hoje em dia, a gente tem adotado uma série de anglicismos. “Vou te mandar um invite”, sendo que a gente tem uma palavra em português para isso.

O que eu quero dizer é que, ao fazer a adoção de um vocabulário, a gente precisa pensar: o que estamos construindo? Que mundo estamos construindo? Porque, nesse exemplo do anglicismo, o que a gente está construindo é um mundo subalterno aos Estados Unidos e ao Norte Global.

Ao adotar aquele vocabulário — sendo que temos palavras para dizer aquilo na nossa própria língua —, a gente acaba se colocando numa posição de inferioridade em relação àquele idioma. Então, quando eu proponho um léxico ecodecolonial, é justamente isso: é apenas o começo daquilo que poderia ser a construção de um novo mundo, de um novo paradigma, com novas palavras. Ou talvez nem sejam palavras novas, mas aquelas que carreguem os significados do mundo que a gente, efetivamente, quer ver acontecer.

Quais livros e autores você recomendaria para os leitores interessados em repensar os modos de ser e estar no mundo?

  • Esperança ativa (Bambual Editora), de Joanna Macy e Chris Johnstone
  • Ailton Krenak, autor de várias obras relevantes à temática, como Ideias para adiar o fim do mundo (Companhia das Letras), O amanhã não está à venda (Companhia das Letras) e A vida não é útil (Companhia das Letras).
  • Stefano Mancuso, autor de Revolução das plantas (Ubu) e A planta do mundo (Ubu)
  • Maneiras de ser: animais, plantas, máquinas: a busca por uma inteligência planetária (Todavia), de James Bridle.
  • A metamorfose das plantas (Edipro), de Johann Wolfgang von Goethe.
  • Metamorfoses (Dantes Editora), de Emanuele Coccia.
  • Regenerantes de Gaia (Dantes Editora), de Fabio Rubio Scarano.

O que você tem lido, ultimamente?

Eu leio muita coisa ao mesmo tempo — uma dinâmica de parar e retomar muitas leituras —, mas alguns livros que estão na mesa atualmente são: O despertar de tudo (Companhia das Letras), de David Graeber e David Wengrow; Tekoá; uma arte milenar indígena para o bem-viver (BestSeller), de Kaká Werá; Pensamento vivo: as plantas como mestras (Bambual Editora), de Craig Holdrege; La experiencia interna, de Jacobo Grinberg Zylberbaum; e A psicologia do inconsciente (Editora Vozes), de C. G. Jung.

***

Ao ouvir Coral Michelin, pensei no quanto a noção de pluriversal desafia (e questiona) a nossa tendência a imaginar o futuro como uma linha única. O termo, que surge em contraponto ao “universal”, propõe o reconhecimento de muitos mundos coexistindo — diferentes modos de viver, sentir e conhecer que se entrelaçam sem hierarquia. No design ecossistêmico de Coral, esse pluralismo se materializa como ética e prática: futuros possíveis não apenas para humanos, mas para todas as formas de vida. Essa escuta ampliada do mundo atravessa tanto o pensamento decolonial quanto a poesia, e revela algo essencial sobre o tempo em que vivemos. Talvez o verdadeiro futuro não seja um destino comum, e sim o encontro entre muitos caminhos tecidos mutuamente.

Pensei na poesia Tecendo a Manhã (João Cabral de Melo Neto). Nela, o poeta nos ensina que a manhã não nasce pronta: ela é tecida, fio a fio, pelo canto de muitos galos. Essa imagem serve como metáfora luminosa para o que Coral Michelin propõe no seu trabalho — a ideia de que o futuro também é uma tessitura coletiva, feita de múltiplos gestos, vozes e presenças. Assim como o galo de Cabral desperta o dia convocando outros galos, o design ecossistêmico (em livro e ato) desperta consciências, chamando outras formas de vida para encorpar o coro. O futuro, como a manhã, não se impõe: ele se constrói em ressonância.

*Lu Magalhães é fundadora do Grupo Primavera (Pri, de primavera & Great People Books), sócia do PublishNews e do #coisadelivreiro. Graduada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado em Administração (MBA) pela Universidade de São Paulo (USP) e especialização em Desenvolvimento Organizacional pela Wharton School (Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos). A executiva atua no mercado editorial nacional e internacional há mais de 20 anos.

**Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews.

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