'Cadelas de aluguel', livro de estreia de Dahlia de la Cerda, traz histórias de mulheres atravessadas pela violência e munidas de um desejo irrefreável por vingança
As personagens narradoras de
Cadelas de aluguel (DBA, 176 pp, R$ 72,90 - Trad.: Marina Waquil) têm um
modus operandi: sem espaço para crises morais, essas mulheres, em sua maioria jovens, fazem o que sentem que deve ser feito — um aborto, um roubo, um ato extremo de vingança —, enquanto são afetadas por coisas banais, como um filme adolescente de Hollywood, a letra de um corrido, a quantidade de likes em uma foto do Instagram. Como em
Cães de aluguel, filme de Quentin Tarantino de 1992,
Cadelas de aluguel mistura sangue derramado e cultura pop. Mas há entre as duas obras uma diferença fundamental: aqui as personagens são mulheres mexicanas e a violência não é mero recurso estético. Sem poder contar com Deus, como a protagonista
Deus não se meteu, que decide começar a roubar, ou com o Estado, como a protagonista de
La Huesera, que perdeu uma amiga vítima de feminicídio, as personagens de
Cadelas de aluguel tomam as rédeas e vão atrás de justiça. Com humor ácido e linguagem que reflete a fala popular, Dahlia de la Cerda –
semifinalista do International Booker Prize ri por último enquanto deixa sangrar.