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Adaptação teatral de 'A palavra que resta' inicia temporada no Rio
PublishNews, Redação, 06/03/2025
Obra que adapta livro de Stênio Gardel começa temporada nesta sexta, dia 7 de março, no Teatro Laura Alvim

'A palavra que resta', versão para o teatro do livro do escritor cearense Stênio Gardel — vencedor do National Book Awards na categoria literatura traduzida —, que estreia nova temporada no Rio | © Carolina Spork
'A palavra que resta', versão para o teatro do livro do escritor cearense Stênio Gardel — vencedor do National Book Awards na categoria literatura traduzida —, que estreia nova temporada no Rio | © Carolina Spork

As dores e os dilemas de um homem que precisou ocultar a própria sexualidade por décadas, para sobreviver em meio a uma sociedade provinciana e heteronormativa, são levadas para o palco em A palavra que resta, versão para o teatro do livro do escritor cearense Stênio Gardel — vencedor do National Book Awards na categoria literatura traduzida. A peça estreia nova temporada no Rio, no dia 7 de março, no Teatro Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176 – Rio de Janeiro / RJ). Sob a direção de Daniel Herz, a peça está indicada ao 19º Prêmio APTR nas categorias Direção (Daniel Herz) e Atriz em Papel Coadjuvante (Valéria Barcellos).

O romance de estreia de Gardel percorre os conflitos familiares do protagonista, Raimundo Gaudêncio de Freitas, e as relações que ele estabeleceu depois de fugir de casa e cair na estrada, bem como as catarses e ressignificações impostas pelo destino. A encenação de Herz, que também assina a adaptação, reveza na condução das vozes dos personagens: os seis atores em cena se revezam em todos os papéis. O espetáculo traz no elenco Ana Paula Secco, Charles Fricks, Leandro Castilho, Paulo Hamilton e Verônica Reis — e a atriz convidada Valéria Barcellos.

"Somos todos Raimundo. Tem uma roupa base do Raimundo, que é um macacão — entre os figurinos lindos que o Wanderley (Gomes) criou. Temos aqui uma pluralidade. Quando trabalhei na adaptação já fiz as divisões todas. Existe uma unidade em todos que o interpretam: a angústia. Raimundo experimenta a vida para poder adquirir coragem para vivê-la. Ele tem dificuldade de reconhecer o seu desejo, esconde a homossexualidade, tenta gostar de mulher, finge, trabalha com caminhoneiros, procura se proteger em meio a uma sociedade heteronormativa", conta Daniel Herz. "A forma com a qual Stênio conta essa história e a descreve com suas palavras e metáforas é tocante, profunda. Há uma beleza na tragicidade", observa o ator Paulo Hamilton.

Nascido no sertão nordestino, Raimundo trabalha desde cedo na roça e não teve a oportunidade de ir à escola. Durante a fase de descoberta do sexo, na juventude, apaixona-se pelo melhor amigo, Cícero. Após serem flagrados juntos, são demonizados e separados pelas duas famílias. "Raimundo é chicoteado pelo pai e a mãe faz ainda pior: o coloca para fora de casa, contrariando o senso comum de que as mães são mais acolhedoras. Como somos uma companhia, e teatro é brincar de ser outro, o nosso rodízio exige uma atividade cerebral do público, até porque a história vai e volta no tempo", continua Herz. "Desta forma, o revezamento ganha também uma agilidade que a trama precisa ter em cena", acrescenta a atriz Verônica Reis.

Para o ator Charles Fricks, essa dinâmica cênica proposta pelo diretor humaniza a todos. "Podemos ser tanto o que oprime como o que é oprimido. Podemos ser a mão que afaga como também a que chicoteia, em nome de Deus. É importante contar histórias como essa: as pessoas precisam saber que não estão sozinhas no mundo", avalia Fricks.

Nesse caminho de pedras, Raimundo conhece o acolhimento justamente ao desenvolver uma amizade com uma mulher trans, vivida por Valéria Barcellos, e também por Verônica Reis e Ana Paula Secco. "Ele é transfóbico inicialmente, mas se permite se aproximar dessa pessoa. Tenho muito em comum com a Susany: já fui agredida assim como ela -- inclusive. Mas nunca lancei mão da prostituição", conta Valéria. "Acredito que a mensagem que fica é: não tenha medo de se aproximar, permita-se olhar para o outro, mas não por cima do muro. Convide-o para tomar um café. Saia dessa superficialidade", propõe.

Depois que são defenestrados e separados na trama, Cícero desaparece, deixando apenas uma carta a Raimundo, que era analfabeto. Uma vez expulso de casa pela mãe, ele passa mais de 50 anos sem saber ler ou escrever. Aos 71 anos, resolve ser alfabetizado para poder saber o que, enfim, o seu amado do passado havia lhe escrito.

"Infelizmente, ainda vivemos em meio a uma sociedade homofóbica e racista. O que mais me encantou nesta obra do Stênio é que ela fala de pessoas à margem da sociedade, da ideia de que a diferença produz o medo que, por sua vez, acaba levando ao ódio. Fiquei muito arrebatado ao ler o livro. Se o espetáculo mostrar quanta dor desnecessária a gente produz na sociedade, se a gente tivesse mais empatia para lidar com o outro, já valeu", torce o diretor Daniel Herz.

[06/03/2025 08:00:00]
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