'Solenoide' é uma obra de maturidade, considerada pelo próprio autor, Mircea Cărtărescu, como bastante representativa de seu trabalho
Solenoide (Mundaréu, 784 pp, R$ 146 – Trad.: Fernando Kablin), publicada na Romênia em 2015, é uma obra de maturidade, considerada pelo próprio autor, Mircea Cărtărescu, como bastante representativa de seu trabalho até então. O nome do protagonista deste romance poderia bem ser Mircea Cărtărescu, mas é um professor do ensino público em um bairro periférico de Bucareste. Ainda jovem, um malfadado sarau literário enterrou de vez suas pretensões literárias, restando apenas um diário para atestar o escritor que ele poderia ter sido. Trata-se, então, de autoficção de um duplo imaginário do escritor? Sua vida se resume a ir da escola para casa. Uma casa enorme, em forma de navio, construída por um cientista sobre um solenoide – um gerador de campo magnético que atrai todos os temas e obsessões literárias do escritor Cărtărescu, transformando a rotina do professor primário, para além do nonsense educacional e do terror do sistema de saúde, em um caracol de reflexões sobre percepção da realidade, literatura e filosofia. Tudo isso em Bucareste, capital cinzenta de um país sob regime ditatorial e empobrecido, uma cidade melancólica e sufocante, às vezes fantasmal. Pode-se dizer que a literatura de Cărtărescu seja intimista, detalhista, fabulosa, filosófica, monumental, lúdica, metaliterária e desafiadora. Entretanto,
Solenoide destoa de outras obras sobre as quais costumam recair esses mesmos adjetivos.