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Três perguntas do PN para JORDAN, poeta e slammer
PublishNews, Beatriz Sardinha, 16/05/2024
Poeta, slammer, dramaturgo e compositor baiano foi o vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu de 2023

O poeta, slammer, dramaturgo e compositor baiano JORDAN é o autor do livro de poemas Dois preto apaixonado na cama, obra que tem como principal reivindicação narrativas afrocentradas no contexto das relações homoafetivas entre homens. JORDAN foi o vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu de 2023, categoria que faz parte do Festival MIX Brasil, evento voltado à cultura e público LGBTQIAPN+. Os poemas também investigam temáticas como a insalubridade das oportunidades de trabalho, o genocídio da juventude negra e a objetificação do homem negro. A obra tem previsão de lançamento pela editora Reformatório no primeiro semestre deste ano.

JORDAN respondeu a três perguntas do PublishNews.

PublishNews – Sobre o seu livro ‘Dois preto apaixonado na cama’, como você enxerga a importância de uma obra que investigue e adentre essa temática do amor LGBTQIAP+ entre dois homens pretos? Você teve alguma obra ou autor que te inspirou a escrever sobre esse tema?

Jordan Uma obra como essa é tão importante quanto as descobertas de estátuas no fundo do oceano ou numa cidade arqueológica. A partir dessa obra, desse objeto, dessa imagem recuperada, é possível repensar a civilização que perdeu ela, o que houve, em que momento, como aquele povo se sentiu ao vê-la desaparecer e obviamente os motivos pelos quais os dominadores fizeram questão de dar um fim naquilo. Assim como muitas obras gregas e romanas se perderam na guerra, o amor entre homens pretos também desapareceu em alguma batalha. O que eu tenho é absoluta certeza que durante todo o tempo houve resistência para legitimar esse amor. No entanto, esse tipo de amor é tão poderoso, que ainda hoje há um silêncio etéreo diante dele. Platão, em O banquete, recomenda a afetividades entre homens; ou seja, a intelectualidade dominadora ocidental enxergou muito cedo a força militar que poderia surgir a partir das trocas afetivas e sexuais entre dois homens. Para você ter uma ideia existia um tipo mélica, ou seja um tipo de poesia, específica para as relações homoafetivas entre guerreiros, que era o paidikón. Logo, dois homens pretos desfrutando dessa interação poderia ser um risco para a velha colonização e continua sendo. O meu livro é uma obra ajeitada para revelar esse sotaque esquecido na tontura de alguma árvore centenária. E todas as obras que eu li na vida me inspiraram, pelo silêncio de todas elas, pois nenhuma tem no timbre os homens que eu amo.

PN – Como foi receber o Prêmio Caio Fernando de Abreu, em novembro do ano passado? Qual a sua relação com a figura do próprio Caio?

Jordan – Eu passei o ano inteiro me preparando para esse prêmio. Li os editais dos anos anteriores, pesquisei sobre as obras vencedoras e fiz promessa para o Senhor do Bonfim. Em janeiro desse ano voltei para cumprir minha promessa. Nas vésperas do prêmio, eu tentava disfarçar mas não conseguia pensar em outra coisa. Um dia antes – num sábado de manhã – os personagens que aparecem no livro vieram me agradecer. Todos eles homens pretos que queriam contar suas histórias e que eu conheci no rodapé ignorado de uma enciclopédia, como transeunte no plano geral de um documentário sobre o carnaval de Olinda ou ainda ao me sentar em cadeiras que o tempo pensou que seriam inofensivas. Então, quando recebi o prêmio tive que dividir com todos eles. E a figura do Caio é substancial para a comunidade LGBTQIAP+; durante a minha graduação descobri os contos dele e fui muito feliz em ler. Atualmente não é dos autores que eu costumo recorrer com frequência mas em algum momento quero voltar a pesquisá-lo.

PN – Você também tem produções no teatro, quais são os próximos desafios na carreira? Você possui algum ‘grande objetivo’ a curto prazo como, por exemplo, adentrar mais algum gênero?

Jordan – Comecei a inventar a poesia afroexistencialista que pretende cavucar a experiência da pessoa preta para além dos recortes econômicos. A única pergunta que eu quero responder nesse projeto é: vale a pena viver sendo uma pessoa preta? Vale mesmo ou não? Somando tudo o que vivemos no arco das décadas, o saldo é positivo? Catando todos os feijões do saco e jogando as vargens doentes no lixo, dá uma panela? Isso é muito desafiador porque existe uma grande tentação de virar um xarope motivacional ou uma fossa intolerável. Minha vontade é que seja uma obra mal-humorada mas fresquinha. Tipo aquele idoso chato que te dá goiabada na ponta da faca, sabe? Em relação ao gênero, quero muito voltar a escrever e pensar em cortinas, em cena, em teatro, mas o suingue da poesia tem balançado muito minha caneta.

[16/05/2024 10:00:00]
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