Em 'Corações gentis', o autor Eduardo Neiva faz uma crítica autoconsciente sobre os limites entre o real e o imaginário
Neiva é um escritor irônico. Criando, ficcionalizando, ele parece dar rasteiras seguidas em suas próprias diatribes lógicas de professor, em que se pressentia, um meticuloso designer da razão.
Corações Gentis (Lacre, 164 pp, R$ 55,00) é muito que bem outra coisa. Erudito que se diverte com a própria erudição, Neiva vai buscar no
leit-motiv medieval e pós-medieval do
cuore gentile de Dante em
Vita Nuova a centelha para estes seis contos em torno da experiência amorosa, seja em seus matizes benignos, seja no que também convoca algo de “dantesco”. É essa convocação que parece irônica, por interpelar o leitor a que partilhe um sentido segundo da letra. A ironia, de fato, só se faz na escuta. Com Neiva, porém, o objeto ironizado não é exatamente o saber letrado, mas a própria letra do saber, ou o discurso em que algo se transmite. É uma escrita autoconsciente no sentido de que reflete, sem pretensões de metalinguagem, sobre procedimentos narrativos, limites da ficção, isto é, os limites do real e do imaginário.