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Nomear limita?!
PublishNews, André Palme, 18/07/2023
Em novo artigo, André Palme fala sobre as desvantagens que enxerga na nomeação de conteúdos em áudio de maneira tão rígida e das divisões que acabam sendo criadas entre audiolivros e podcasts

Será que a indústria do livro está perdendo oportunidades ao fixar muito fortemente o audiolivro como um formato com várias regras e definições? | © Marco Verch
Será que a indústria do livro está perdendo oportunidades ao fixar muito fortemente o audiolivro como um formato com várias regras e definições? | © Marco Verch
Volto para falar de um assunto de que já falei de maneira mais técnica há algum tempo: as desvantagens que enxergo em nomearmos conteúdos em áudio de maneira tão rígida. Falo aqui principalmente da divisão, quase intransponível, que criamos entre audiolivros e podcasts.

Escrevi um artigo em março de 2022 falando sobre isso, mas com um foco em elucidar os termos e a maneira como o mercado – não necessariamente os ouvintes, e esse é um ponto chave – nomeia os conteúdos em áudio. Se você quiser ler, é só clicar aqui.

A grande questão é: ok, já existem essas nomenclaturas diferentes entre audiolivro, audiodrama, podcast. Dentro do mundo dos podcasts, inclusive, existe toda uma sub-definição entre mesacast, audio.doc, podcast reportagem, dramacast e por aí vai. Mas será mesmo que isso ajuda? Será que isso clareia a visão para os ouvintes ou tira oportunidades para conteúdos?

Antes de colocar minha própria visão, quero trazer a fala que ouvi do Daniel Ek, CEO e fundador do Spotify, em um podcast que ouvi. Para ele, a diferença entre audiolivros e podcasts deveria existir somente no modelo de negócio, ou seja, podcasts são áudios suportados por propaganda, audiolivros são áudios pagos pelo usuário. Gosto da maneira como ele coloca, mas acho que tampouco é assim 8 ou 80. Na minha visão, o modelo de negócio também limita, porque existem audiolivros gratuitos e podcasts por assinatura, paga pelo usuário, por exemplo.

Acho que são conversas diferentes e quero falar das duas.

Quando falamos de modelos de negócios, existe sim neste momento uma predominância de podcasts que tem como fonte de renda, em muitos casos exclusiva, a venda de espaços publicitários. Isso não acontece com os audiolivros. Eles estão disponibilizados em players que, ou cobram uma assinatura mensal, ou vendem de maneira avulsa (à la carte) os audiolivros para o usuário final.

Mas saibam que existem referências globais em audiolivros – e não vou citar o nome da pessoa porque ouvi isso em uma sessão privada – que já consideram inevitável que nos próximos cinco anos o audiolivro seja incluído em modelos de negócio suportados por propaganda, haja visto o movimento de vídeo e música e também uma recessão global que aparece no horizonte. Crise essa que já tem feito muita gente não ter dinheiro para comprar conteúdo, começando a topar consumir histórias que sejam interrompidas por blocos de propaganda. Isso, claro, é um grande tabu para a indústria do livro, que nunca teve – pelo menos de maneira massiva – a propaganda permeando livros, em qualquer modelo que seja!

Mas não acho que devemos nos ater a isso aqui, porque modelo de negócio é uma discussão muito maior… vou inclusive escrever um artigo sobre isso logo, logo.

Voltando ao nome do formato: ao segregarmos audiolivros e podcasts como animais diferentes, perdemos automaticamente a chance de transbordar ouvintes de um formato para o outro. Existem iniciativas de editoras produzindo podcasts sobre livros, mas ainda sob o formato de um mesacast: aquele podcast onde algumas pessoas conversam ao redor de uma mesa sobre um tema.

Por outro lado, existem podcasts de conversas sobre um determinado tema, com episódios roteirizados e cheios de informações que duram 4 horas e poderiam claramente ser um audiolivro. Escuta um trechinho desse "storycast" aqui e me conta se não poderíamos chamar isso de um audiolivro de ficção.

A verdade é que a indústria editorial tem muito conteúdo para ser transformado em áudio, e poderia se beneficiar grandemente se isso fosse produzido, por exemplo, junto a podcasters que já tem uma audiência ao seu redor. O podcast é hoje o formato que tem uma massa crítica de consumidores gigante, e que são o ouvinte mais próximo de um audiolivro que pode existir: uma pessoa que está disposta a ouvir algo que não seja música.

Então esse artigo é mais uma provocação e quero deixar aqui duas perguntas:

  • Será que a indústria do livro está perdendo oportunidades ao fixar muito fortemente o audiolivro como um formato com várias regras e definições e, assim, não atingindo uma demanda por histórias gigantesca, que existe hoje nos consumidores de podcast?
  • Será que a indústria do podcast não está perdendo a oportunidade de beber de uma fonte madura, inesgotável e consolidada de histórias por não considerar o audiolivro um produto de áudio e consumo como é o podcast?

Acho que ao juntarmos podcast e audiolivro e essas duas indústrias, multiplicaríamos não só a capacidade de produção de histórias para ouvir, mas a demanda por consumo, o que seria muito bom para autores, podcasters, editoras, e todos os agentes dessa cadeia!

Palme é um profissional do mercado de publishing, liderando e sendo pioneiro em importantes inovações do setor, especialmente com conteúdos e negócios digitais.

Possui mais de 20 anos de carreira, sendo 13 deles no mercado de livros e na liderança de projetos que envolvem marketing, tecnologia e principalmente conteúdos em todos os seus formatos. Nos últimos anos liderou projetos que somam mais de 12 mil horas de conteúdo em áudio, entre audiolivros, podcasts e audioseries. Liderou também toda produção da versão brasileira dos audiolivros da saga de Harry Potter.

Atualmente, é head da Estante Virtual, marketplace de livros do Magalu, e também segue como colunista, professor, mentor e coordenador da Comissão de Inovação e Tecnologia da Câmara Brasileira do Livro (CBL).

** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews

[18/07/2023 08:00:00]
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