Hoje tirei a manhã para organizar as ideias e para (tentar) zerar as pendências da editora lá longe no Brasil e aqui perto em Portugal. Achei que com mais dois dias de Feira do Livro de Bolonha pela frente não precisaria ter pressa…
Engano meu. Ao chegar, de tarde, senti a feira mais silenciosa e com mais espaço para circular. Aprendi que os dois primeiros dias são em allegro, o terceiro é andante e o ultimo é ponto facultativo. Algumas editoras já estavam mesmo a encaixotar os livros. Segui para os últimos dois agendamentos, onde encontrei agentes cansados mas felizes. Já as reuniões que tentei fazer, impromptu e in loco, já não consegui: as editores já lá não estavam.
Logo dei-me conta de que estava na xêpa da feira, e que se eu voltasse no dia seguinte, arriscava não encontrar quase ninguém (suspeita confirmada por alguns colegas mais experientes). Resolvi palmilhar os quatro pavilhões à caça das últimas descobertas e não encontrei nada sensacional. Corri para reencontrar aqueles livros lindos da minha primeira hora da feira, que, anotei mentalmente, voltaria para ver com calma. É claro que não achei, nem livro, nem agente. Tudo bem, se eu publicar tudo o que me empolgou na feira, terei livros para os próximos cinco anos.
Ao fim da tarde, quando muitos estandes já não tinham nem livros nem gente, resolvi dar a última volta como quem diz arrivederci a Bolonha. Acabei encontrando o único estande cheio. Abarrotado, por sinal. Era justamente o do Brasil, com gente do mundo todo festejando o (virtual) fim da feira com goles de “caipirigna”. Um belo encerramento, para mim, junto a alguns editores e agentes estrangeiros que lá conheci e, para minha surpresa, junto a muitos colegas brasileiros que só descobri por lá, o que só confirma a minha condição de recém-chegado a um segmento vibrante do mercado editorial — mercado o qual eu achava que conhecia tão bem.
Essa foi minha impressão geral de Bolonha: aprendi que preciso aprender. Por mais que eu estivesse habituado a feiras e eventos literários — Frankfurt, LER, Feira de Lisboa — há todo um outro lado do mercado que preciso desbravar, com toda a humildade. Andando pelos corredores bolonheses, escutava na rádio-cabeça Prince cantando “partying like it’s 1999” e pensava que no ano da canção esse velho guerreiro aqui estava descobrindo o que é ser editor, sem noção porém com empolgação. Vinte e cinco anos depois, começar a trabalhar um novo (para mim) segmento editorial, o dos livros infantojuvenis, pode ser como uma segunda adolescência profissional, na qual terei um pouco mais de noção, um pouco menos de energia, mas festejando como se fosse 1999.






Julio Silveira é editor, escritor e curador. Fundou a Casa da Palavra em 1996, dirigiu a Nova Fronteira/Agir e hoje dedica-se à Ímã Editorial, no Brasil, e à Motor Editorial, em Portugal. É atual curador do LER, Festival do Leitor.
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