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Annie Ernaux: 'O reconhecimento do meu trabalho é um sinal de esperança para todas as escritoras'
PublishNews, Guilherme Sobota, 08/12/2022
​No seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura, a escritora francesa detalhou sua trajetória literária e afirmou que escreve para vingar seu povo e seu gênero feminino

Annie Ernaux na leitura do seu discurso do Prêmio Nobel | © Nobelprize.org
Annie Ernaux na leitura do seu discurso do Prêmio Nobel | © Nobelprize.org
No seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura, nesta quarta-feira (7), a escritora francesa Annie Ernaux detalhou sua trajetória literária e afirmou que escreve para vingar seu povo e seu gênero feminino.

"Muito rapidamente me pareceu evidente – a ponto de não imaginar outra forma de começar – ancorar a história da ruptura em meu ser social na situação que havia sido minha como estudante, uma situação revoltante na qual o Estado francês ainda condenava as mulheres, a necessidade de buscar interrupções clandestinas nas mãos de abortistas clandestinos. E eu queria descrever tudo o que havia acontecido com o meu corpo de menina; a descoberta do prazer, menstruações. E assim, sem que me desse conta na época, aquele primeiro livro, publicado em 1974, traçou a região em que eu iria situar a minha escrita, uma região simultaneamente social e feminista. Vingar meu povo e vingar meu sexo seria, a partir de então, a mesma coisa", disse.

Ernaux afirmou que desde que aprendeu a ler, os livros foram sua companhia, e que o hábito da leitura foi incentivado pela mãe, também leitora voraz. Os preços altos dos livros e o fato de eles serem vistos com desconfiança na sua escola religiosa faziam a autora querer ler ainda mais. Entre outros, ela cita como influências determinantes Dom Quixote, As viagens de Gulliver, Jane Eyre, os contos de Grimm e Andersen, David Copperfield, E o vento levou e mais tarde Os miseráveis, As vinhas da ira, A náusea e O estrangeiro.

Ela contou também que escolheu estudar literatura para permanecer próxima dos livros na vida profissional – e que concebia a literatura "como nada menos do que a possibilidade de transformar a realidade".

No discurso, a autora se perguntou qual o lugar que as mulheres ocupam no campo literário, mesmo em um país democrático como a França. "Elas ainda não ganharam legitimidade como produtoras de obras escritas. Existem homens no mundo, inclusive nas esferas intelectuais ocidentais, para quem simplesmente não existem livros escritos por mulheres; eles nunca os citam. O reconhecimento do meu trabalho pela Academia Sueca é um sinal de esperança para todas as escritoras", afirmou.

A escritora esteve no Brasil em novembro, participando da Festa Literária Internacional de Paraty, da qual foi a grande estrela.

Clique aqui para ler o discurso na íntegra (em inglês, francês ou espanhol).

[08/12/2022 11:10:00]
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