Com certeza você já viu em algum app de streaming a lista "livros que viraram filmes". Sei que você também já viu em alguma livraria um livro com a capa de alguma série, que dizia: livro que originou a série de sucesso na Netflix. Esse é o poder dos IPs.
Começando do começo, o que é um IP: uma propriedade intelectual (do inglês Intellectual Property) e que no nosso caso aqui trata-se de um conteúdo de ficção ou não ficção, originalmente lançado - às vezes pensado - em um formato específico.
Alguns IPs não são expansíveis, ou seja, não se adaptam da forma como foram concebidos a outro formato que não seja o original. Um exemplo bem claro: um livro de fotos. Ele poderia ser um e-book: sim (mas talvez não tenha a função de ficar na mesa de centro da sala), poderia ser um filme ou série audiovisual: vai ser chato e ficar parecendo uma apresentação de powerpoint, poderia ser um audiobook ou um podcast: quase impossível.
Já outros IPs podem ser expandidos para muitos outros formatos e é aí que a coisa fica interessante: primeiro porque você criador expande as possibilidades de monetização do seu conteúdo e a presença dessa mesma história em múltiplos players e plataformas; segundo porque com isso você alavanca audiência e potencializa acesso. Quer um exemplo bem famoso: Harry Potter. Um IP que nasceu livro, virou filme, e-book, audiobook, peça de teatro, produtos e muitas outras coisas. Assim como tantos outros, de Marvel a Turma da Mônica. Esse é o poder de uma grande história (voltando ao meu artigo do mês passado).
Existem cada vez mais exemplos, nacionais e internacionais de IPs expandidos. Existem muitos livros que se tornaram produções audiovisuais e muitos desses filmes ou séries acabaram por impulsionar a venda do livro. Não à toa é quase uma regra no mundo do livro que quando isso acontece (o livro virar filme ou série) a editora lança uma nova tiragem com a capa do filme ou série. Isso que a gente na indústria chama de crossmedia ou cross formats é algo que é bom pra todo mundo: pro criador, pras plataformas, pros consumidores.
E tem muita gente boa fazendo isso. A WIP por exemplo, do Bruno D'Angelo e do Pedro Pizzolato é uma empresa focada em gestão e expansão de IPs, o MM Izidoro faz isso com maestria (de HBO ao documentário do Emicida), as produtoras de filmes como a Brigitte Filmes e a RT Features cada vez mais bebem do áudio e dos livros como fonte de IPs pro audiovisual, a Globo faz isso muito bem também, por exemplo com o Caso Evandro, que nasceu podcast e virou série da GloboPlay… e por aí vai. Hollywood nem se fala :)
Então você, como criador e produtor, precisa sempre olhar para a expansão do seu IP. Do quanto aquela história pode caber em outros formatos, para chegar em outras audiências e multiplicar acesso e consumo.
Mas existe outra coisa que tem aparecido bastante também dentro dos players (principalmente de streaming e assinatura), um termo que acabei de inventar aqui e que vou chamar de AP expansível - poderia ser André Palme mas não é haha - ou seja, Audience Property (ou Propriedade de Audiência em tradução livre).
O que quero dizer com isso? Começamos essa semana com o Twitter e o YouTube deixando mais claros seus planos de incluir podcasts dentro dos seus apps, o Spotify já tem feito isso faz tempo… aqui no Skeelo também, começamos com e-books e hoje temos audiobooks e minibooks. Ou seja, uma plataforma constrói uma audiência em um determinado formato (no caso do YouTube os vídeos) e aí percebe que pode para essa mesma audiência introduzir outros formatos e aumentar consumo, seja como uma estratégia de retenção e aumento de uso do app, seja também para trazer mais audiência, já que agora além de assistir ao YouTube, você pode ouvir o YouTube. Foi exatamente esse caminho que o Spotify fez quando introduziu os podcasts para uma base de milhões de fãs de música… e que a Globo está fazendo no Fantástico ao introduzir um podcast sobre adoção de pets em um programa audiovisual assistido por milhões de pessoas.
Em um momento da indústria que a disputa é cada vez mais acirrada para manter o usuário no seu app, na sua plataforma, no seu universo, conseguir expandir o consumo da sua audiência para dentro é garantia de mais receita, mais tráfego e possivelmente novos usuários.
Por isso é tão importante que donos de IPs e players pensem sempre em ter APs expansíveis através de IPs expansíveis, como por exemplo quando uma editora publica um audiobook ou podcast de um livro, ou quando um player do tamanho do YouTube introduz oficialmente os podcasts no seu universo.
E você, qual suas estratégias de IP e AP?
André Palme possui mais de 20 anos de carreira, sendo 14 deles dedicados ao mercado editorial e à transformação do ecossistema do livro no Brasil. Ao longo da trajetória, liderou projetos de inovação envolvendo publishing, tecnologia, conteúdo digital e novos modelos de negócio em empresas como Storytel e Skeelo. Atualmente, lidera a Estante Virtual, marketplace de livros do Magalu, trabalhando na construção de uma plataforma onde cultura, descoberta e commerce se encontram através dos livros. Seu trabalho conecta cultura, tecnologia e mercado, com foco em ampliar as formas de acesso, circulação e relevância dos livros na vida das pessoas. Também atua como colunista, professor, mentor e membro da Comissão de Inovação e Tecnologia da Câmara Brasileira do Livro (CBL).
** Os textos trazidos nessa coluna não refletem, necessariamente, a opinião do PublishNews