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Em livro, Maria Rita Kehl conta a história da feminilidade no século XIX

Psicanalista investiga a construção da ideia do que é ser mulher e o papel dela no nascimento da psicanálise com Freud
A psicanalista Maria Rita Kehl lança o livro 'Deslocamentos do feminino' Foto: Divulgação
A psicanalista Maria Rita Kehl lança o livro 'Deslocamentos do feminino' Foto: Divulgação

RIO — O interesse de Maria Rita Kehl, 64 anos, sobre as mulheres nasceu da sua dupla condição de mulher e psicanalista. Na clínica, ouviu os sofrimentos de muitas pacientes que tinham dificuldade de se apropriar de seus talentos e capacidades por medo de perder o amor de namorados, maridos e, acima de tudo, do pai. Em “Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade” (Boitempo), sua tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 1997 e que ganha nova edição após 18 anos, ela analisa os desencontros entre a mulher e a feminilidade — a ideia construída socialmente do que é ser mulher. Para isso, Maria Rita faz uma história da feminilidade no século XIX e toma como objeto o romance “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Em entrevista por e-mail ao GLOBO, a psicanalista afirma que é uma “feminista meia oito” com muita honra e defende que os homens unam suas vozes às das mulheres nas lutas feministas.

As transformações sociais profundas na sociedade europeia do século XVIII, o iluminismo e as revoluções deram um grande protagonismo às mulheres. A construção da feminilidade no século XIX é uma espécie de resposta a essa ascensão? Ou seria um acomodamento?

A construção do modelo oitocentista de feminilidade é um retrocesso em relação aos avanços promovidos pelo Século das Luzes. Na primeira parte do livro, faço uma breve história da construção do modo de vida burguês para tentar entender a emergência dessa nova figura feminina: a “recatada e do lar”. As mulheres iluministas eram muito mais livres, inclusive na sexualidade. Por isso, também, a figura do adultério se torna tão importante no grande romance do século XIX. Cito de memória: “O cigarro e o adultério são as únicas aventuras do burguês”, escreveu Baudelaire; “se o código napoleônico legalizasse o adultério seria a ruína da literatura”, ironizou Émile Zola. A construção da família nuclear centrada no pai empreendedor e na mãe “rainha do lar” respondeu a uma necessidade das novas configurações sociais e econômicas do século XIX. Não é por mero acaso que aquele foi o século da histeria. A histeria era a única forma de manifestação da insatisfação das mulheres com a vidinha medíocre que o casamento burguês oferecia.

Ao longo do século XIX, a literatura feita de e para mulheres ganha enorme importância, assim como as revistas femininas. De que forma essas publicações construíram essa feminilidade? Eram respostas às demandas desse lugar destinado às mulheres?

As formações sociais produzem ao mesmo tempo seus próprios sintomas e suas tentativas de cura. A chamada “literatura feminina” surge, em primeiro lugar, do fato de que a partir do século XVIII as mulheres das famílias ricas começam a se alfabetizar. De início em casa, com preceptores particulares, depois em escolas. Emma Bovary, a personagem paradigmática que inspirou a segunda parte do meu livro, foi alfabetizada num internato de freiras. Sua imaginação romanesca formou-se na adolescência, a partir dessas leituras ingênuas. As revistas femininas surgiram como entretenimento para minimizar o tédio da vida doméstica, mas também para alimentar um fenômeno novo, característico do capitalismo desde seus primórdios: o desejo de consumo. Lembre-se de que Emma Bovary, em sua fantasia de superar a mediocridade da vida provinciana, torna-se uma consumidora voraz. E seu suicídio não foi causado por uma desilusão amorosa. Ela se suicida porque não consegue pagar as dívidas que contraiu com o vendedor ambulante da região!

O saber produzido sobre as mulheres no surgimento da psicanálise, ou seja, o saber sobre as mulheres que buscaram Freud e com ele fizeram nascer a psicanálise ainda hoje marca a clínica?

Capa do livro 'Deslocamentos do feminino' de Maria Rita Kehl Foto: Divulgação
Capa do livro 'Deslocamentos do feminino' de Maria Rita Kehl Foto: Divulgação

Creio que sim. Não sei se as mulheres no século XXI sofrem mais do que os homens. Provavelmente não. Mas as mulheres continuam a buscar mais a psicanálise. Creio que somos mais acessíveis à experiência do inconsciente e menos resistentes a “má notícia” da castração. “Castração” foi o termo utilizado por Freud para designar nossa incompletude, condição universal da estruturação da subjetividade. As crianças começam a entender o mundo a partir de imagens. A palavra, como designação da coisa, vem depois. E o conceito, com a capacidade de simbolização, se desenvolve ainda mais tarde. Na infância, a comparação entre os órgãos sexuais do menino e da menina — um que se dá a ver, outro que não se dá a ver — produz na criança a fantasia de que o menino possui algo que a menina não tem. Algo bastante valioso, por sinal, já que desde cedo as crianças descobrem a enorme fonte de prazer que reside “ali”. Consequência: o menino sente-se em vantagem, ao se comparar com a menina. Mas faz uma enorme diferença o fato de essa suposta vantagem ser (ou não) confirmada pelo imaginário social circundante. A inferioridade das mulheres no século XIX não tinha nada a ver com seu órgão sexual oculto, e sim com o lugar que lhe era reservado na ordem burguesa. Essa condição funcionava para covalidar a fantasia da inferioridade feminina.

Observa-se no Brasil uma ascensão dos movimentos de mulheres nos últimos anos. Estaríamos vivendo um novo desajuste entre a mulher e a feminilidade, para utilizar os termos do seu livro?

“Podemos juntar nossa fala à dos negros, dos gays, dos trans — e, de minha parte, adoro quando homens juntam suas falas às nossas!”

Maria Rita Kehl
Psicanalista

Não acho que, no Brasil contemporâneo, trate-se de um desajuste. A própria psicanálise contribuiu muito para a expansão das escolhas de destino das mulheres. As meninas de hoje — batalhadoras, politizadas, muito conscientes de seus direitos e de sua igualdade em relação aos homens — não estão desajustadas dos padrões de feminilidade, justamente porque tais padrões já não existem, ou pelo menos não são homogêneos. O que elas têm feito é explodir todas as fronteiras (que são sempre “convencionais”, no sentido amplo da palavra) entre normal e anormal, certo e errado, masculino e feminino. As culturas próprias das sociedades de mercado comportam pelo menos esse fator progressista: as composições de estilo — erótico, existencial, profissional etc. — são variadíssimas, à escolha do freguês. O mercado absorve tudo. Mas os novos estilos, mesmo assim, trazem um potencial de choque, de contestação, que tem efeitos interessantes antes de ser absorvidos pelo mercado e pela indústria cultura.

No movimento feminista, há uma batalha sobre quem estaria autorizado a falar sobre a luta. Essa disputa em torno do “lugar de fala” pode ser relacionada com a busca de um discurso próprio do sujeito na psicanálise?

Tenho duas impressões opostas a respeito! De um lado, é muito importante que os grupos sociais inventem e sustentem sua própria fala. As mulheres foram sempre, tradicionalmente, “faladas” pelo Outro: o médico, o marido, o pai etc. Por outro lado, um dos aspectos mais interessantes da modernidade tardia ou contemporaneidade é o fato de que somos todos capazes de nos colocar no lugar do outro. Não se trata de falar em lugar daquele que não fala; isto pode ser uma forma de manipulação. Trata-se da possibilidade de identificação, de empatia. Podemos juntar nossa fala à dos negros, dos gays, dos trans — e, de minha parte, adoro quando homens juntam suas falas às nossas! Mas talvez eu seja apenas uma feminista “meia oito”. Com muita honra, aliás.