Se em livro de estreia,
Eu sou um gato (1905), Natsume Soseki satirizou a condição humana pelo olhar de um bichano sagaz. Agora, em
Botchan (Estação Liberdade; 184 pp; R$ 38 – Trad. Jefferson José Teixeira), o autor japonês reafirma o estilo com outra trama sobre diferenças: o choque cultural que opõe a cidade grande e o interior. Na história, o personagem que dá título ao romance é um jovem professor de matemática de Tóquio que, aos 23 anos, aceita partir para uma localidade inóspita nos rincões do Japão, na ilha de Shikoku, a fim de lecionar para aquela que será sua primeira turma de alunos ginasiais. Habilidade social não é o forte do protagonista. Até aceitar o emprego, Botchan tinha passado os últimos três anos vivendo recluso em um cubículo “de quatro tatames e meio”. Seus modos são ríspidos, sua paciência com os outros é limitada, sua impetuosidade vive lhe causando problemas, sua fome é insaciável. No olhar ferino de Natsume Soseki quem se torna alvo da chacota e da maldade dos colegas não é o estudante desengonçado, mas o professor cujo sotaque cosmopolita agride os ouvidos dos alunos da província.