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Formação ou deformação de leitores?
PublishNews, Maria Fernanda Rodrigues, 29/08/2011
Alberto Manguel não gostou do discurso da editora britânica Kate Wilson e os dois discutiram energeticamente sobre como formar leitores

Tudo ia bem em um dos debates mais aguardados da Jornada Nacional de Literatura – A formação do leitor contemporâneo, na tarde de sexta-feira, dia 26, quando o até então tranquilo Alberto Manguel pediu o microfone de volta para criticar o que a editora Kate Wilson, 25 anos de experiência em edição de livros infantis, acabara de falar. Depois de apresentar pesquisas como a que diz que só 14% das crianças entre quatro e cinco anos sabem amarrar o sapato, mas que 21% delas podem operar um aplicativo em smartphone (no caso dos EUA, sobe para 30%) e de contar quais são os novos desafios do editor, ela apresentou o aplicativo do livro Cinderela desenvolvido por sua editora, a recém-criada Nosy Crow, que publica títulos infantis nos formatos impresso, e-book e aplicativo. Foi muito aplaudida pela plateia atenta.

Foi nessa hora que o escritor argentino se exaltou e disse: “Eu não sabia que faria parte dessa discussão a deformação do leitor defendida com argumentos comerciais, de vender este ou aquele produto. O livro não é um produto comercial. É nocivo que uma crianças de três ou quatro anos seja introduzida à leitura dessa forma, aprendendo a ler na tela. Aprender a ler é outra coisa”. Foi muito aplaudido. Kate respondeu: “Não me importo com o que as pessoas leiam, mas quero que elas leiam. A pior coisa seria as crianças pararem de ler.” Foi muito aplaudida de novo.

Em defesa da tecnologia, Kate disse: “Tecnologia não é literatura e não há motivo para se opor. Mas a tecnologia tem sim a possibilidade de tornar a leitura mais acessível a mais pessoas”. A preocupação de Manguel é que com o desenvolvimento dessas plataformas para o livro infantil as crianças passem a ser tratadas como “estúpidas”. “A primeira coisa é reconhecer a inteligência com a qual viemos ao mundo e exercitá-la. Devemos alimentar sonhos com inteligência e não com boberinhas”, comentou o escritor argentino.

“A tecnologia não pensa sozinha; as escolhas são nossas”, rebateu Kate Wilson. E disse mais: “O que o torna um bom leitor é a prática. Desde que você comece tem a oportunidade de se tornar um leitor voraz”.

A história foi longe, e Beatriz Sarlo, a crítica argentina que tirou o sono da coordenadora Tania Rösing durante os três anos de negociações para que sua vinda a Passo Fundo se concretizasse, até saiu do centro do debate. Affonso Romano de Sant’Anna também participou do encontro mediado por Fabiano dos Santos, diretor do Livro, Leitura e Literatura do MinC.

Kate, que ainda está no Brasil se reunindo com editores para apresentar seus produtos, escreveu sobre o episódio no blog da Nosy Crow.

[29/08/2011 00:00:00]
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