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A África em Ouro Preto
PublishNews, Maria Fernanda Rodrigues, 10/11/2010
Fórum das Letras debate a literatura feita em língua portuguesa e recebe autores brasileiros e africanos até o dia 15

Pepetela na abertura. Mia Couto no encerramento. E assim, de hoje até a próxima segunda-feira (15), bons nomes da literatura africana e da brasileira se revezam nas mesas de debate do Fórum das Letras de Ouro Preto, que se espalha pelas ladeiras, igrejas e por outros cenários da histórica cidade mineira.

O Fórum das Letras é um projeto da Universidade Federal de Ouro Preto, foi idealizado e tem curadoria de Guiomar de Grammont e terá a África como tema deste ano. “Creio que esta é a edição em que conseguimos chegar o mais perto possível dos nossos objetivos, tanto no envolvimento das escolas públicas na formação de leitores, quanto na programação”, conta a curadora que chegou a passar um mês em Angola para entender melhor aquela cultura.

São esperadas 20 mil pessoas. De acordo com Guiomar, o público é composto em sua maioria por estudantes, mas de uma certa forma toda a cidade participa. “Conheço adultos de Ouro Preto que retornaram à escola por influência do Fórum das Letras e essas histórias me emocionam muito e são o que me faz continuar quando vivencio dificuldades que parecem intransponíveis, como a escassez dos patrocínios”, comentou a curadora.

Além de Pepetela, que fala hoje às 19h sobre o tema “Escreviver em Guerra” ao lado de Odete Semedo (Guiné-Bissau), participam do Fórum das Letras Paulina Chiziane, a primeira mulher moçambicana a publicar um romance, Ondjaki, Carmo Neto, João de Melo, Adriano Botelho, João Maimona, Luandino Vieira, Inocência da Mata, Margarida Paredes, Affonso Ávila, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Marina Colassanti e Adélia Prado, entre tantos outros. Para a programação completa, clique aqui.

ENTREVISTA com Guiomar de Grammont, idealizadora e curadora do Fórum das Letras

PN: Como é feita a programação? Quantas pessoas trabalham nela e desde quando estão pensando e organizando o Fórum?

GG: Eu faço a programação sozinha, mas, em geral, faço muitas pesquisas, procuro ler a maior parte das resenhas dos veículos literários importantes, e grande parte dos livros lançados a cada ano. Consulto muito as editoras, converso com outros professores e amigos escritores e submeto, sempre, temas e partricipantes das mesas aos próprios autores.

Durante o ano, apenas eu e a coordenadora executiva preparamos o Fórum das Letras, com apoio apenas de uma secretária. Eu apresento sozinha o projeto de captação às empresas e ministérios (e não sou comissionada, nem espero isso, pois sou professora de um órgão público federal).

Os funcionários da universidade responsáveis pela gestão financeira do evento também nos ajudam muito nas planilhas e nos pagamentos do evento anterior. Cerca de três meses antes do evento, agregamos o trabalho da assessoria de imprensa e escritório de design gráfico.

Contudo, o Fórum das Letrinhas tem uma dinâmica diferente, nossa meta é torná-lo, cada vez mais, um amplo trabalho educativo, realizado durante o ano todo nas escolas e bibliotecas públicas, na cidade de Ouro Preto e pequenos distritos da região.

Qual é a sua expectativa para esta edição?

Creio que é a edição em que conseguimos chegar o mais perto possível dos nossos objetivos, tanto no envolvimento das escolas públicas na formação de leitores, quanto na programação do Fórum. Encontram-se em Ouro Preto, alguns dos mais conhecidos escritores dos países africanos de língua portuguesa e estarão aqui também muitos escritores brasileiros importantíssimos no cenário nacional, com grande destaque para a poesia, na contramão das diretrizes do mercado.

O conceito do evento foi muito elaborado, a partir de pesquisas muito profundas. Fui lecionar em Angola em julho, para preparar melhor o evento e conhecer, pelo menos um pouco, a realidade africana. Além diso, aperfeiçoamos muito a logística, conseguindo manter todas as atividades do Fórum das Letras absolutamente gratuitas. O evento é feito, hoje, em um espaço aconchegante e amplo, onde os jovens podem até deitar-se no chão, em almofadas. Todos têm vontade de passar dias aqui, ouvindo falar de literatura!

Essa é a edição mais internacional?

Não. Em edições anteriores chegamos a reunir, na mesma edição, autores de dez países diferentes, mas tínhamos menos recursos e, portanto, mais dificuldades em tornar esse fato conhecido do público no Brasil. Trouxemos pela primeira vez ao Brasil autores como o José Luís Peixoto, por exemplo, mas isso não chegou a ser devidamente noticiado.

Foi difícil convencer algum autor a vir ao Brasil?

Eu tinha mais dificuldades, antes, em trazer pessoas a Ouro Preto, hoje, muitos autores brasileiros importantes pedem às suas editoras para me informar que gostariam de vir ao Fórum. Na verdade, todos os autores aos quais as editoras nos permitiram acesso viram com muita simpatia a idéia de vir a Ouro Preto. Tive uma recusa, da Elizabeth Badinter, porque ela não sai mais de Paris.

Queria ter trazido algum escritor, mas não conseguiu?

Sim, gostaria de ter trazido Saramago, porque tenho certeza que ele iria adorar Ouro Preto e identificar-se muito com a cidade, ocmo acontece com a maioria dos autores portugueses que recebemos. Gostaria, ainda, de trazer Vargas Llosa, Garcia Márques, Isabel Allende e Lobo Antunes, que é meu escritor preferido, em prosa. Já escrevi sobre a obra dele.

Na sua opinião, qual foi a melhor edição até agora?

A melhor edição, para mim, é a que está acontecendo. Portanto, é a de agora. Tenho uma alegria imensa quando vejo que conseguimos, que o evento está acontecendo e sempre lamento não ser apenas convidada e poder aproveitar mais de todas as conversas e encontros.

Quem é o público que vai ao Fórum das Letras?

O mais heterogêneo possível. De todas as idades e classes sociais. O Fórum das Letras recebe mendigos e crianças. Aqui, todos podem descobrir o prazer de conversar sobre literatura. A maior parte do nosso público é constituída por estudantes, mas conheço adultos de Ouro Preto que retornaram à escola por influência do Fórum das Letras e essas histórias me emocionam muito e são o que me faz continuar quando vivencio dificuldades que parecem intransponíveis, como a escassez dos patrocínios.

Quantas pessoas devem circular por Ouro Preto nesses dias?

Cerca de 20 mil pessoas, apenas para o Fórum das Letras. Talvez mais.

Qual é o investimento total de um evento como esse? Há patrocínios?

Sim, trabalhamos com patrocínios de empresas através da Lei Rouanet e também dos fundos ministeriais. Fazemos o evento inteiro, com todas as atividades desenvolvidas durante o ano todo com cerca de R$ 600 mil reais. Mas o evento não fica a dever em nada em qualitativamente e visualmente a outros eventos. Além disso, como definiu um convidado, ele é, ao maesmo tempo, popular e sofisticado, profundo e íntimo. São 600 mil que parecem 6 milhões.

[A cobertura do Fórum das Letras de Ouro Preto pelo PublishNews tem o apoio da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.]

[10/11/2010 01:00:00]
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